sábado

Metade da vida


Fuck the fake shit !

Ontem estava a falar com uma das minhas amigas mais queridas sobre como é libertador permitirmo-nos ser exatamente quem somos. Deixar de mudar pelos outros. Deixar de fazer fretes. Deixar de acolher pessoas que não nos acrescentam nada, que não nos respeitam como somos e que nos fazem mal.
Lamentámos que este entendimento, este amor-próprio só nos tenha chegado depois dos 40. Teria sido tão mais fácil viver e enfrentar a vida a saber que podemos acolher os nossos defeitos, as nossas virtudes, as nossas ideias, a nossa forma de amar e de receber - de exigir - o amor e o respeito. 
Teria poupado tanta amargura. Porque isto de sermos senhoras nossas é uma arma com um poder indescritível nesta demanda de tranquilidade, amor e felicidade que todos perseguimos - uns mais conscientemente do que outros.
É bom perceber que quem gosta de nós como somos, quem respeita as nossas opções - mesmo que não concorde com elas - quem nos reconhece a liberdade de sermos genuínos, é porque gosta de nós de verdade. São estas as pessoas que devemos manter ao nosso lado. São estas as pessoas que valem a pena.
As outras deixamo-las ir às suas vidas, com as suas ideias, com as suas formas de encarar o mundo e as pessoas. 
Não somos iluminadas nem descobrimos a roda, mas ontem falámos sobre como nunca é tarde para encontrarmos segurança, confiança, amor por nós. 
Sobre como já não temos medo de SER.
E parecendo que não esta perceção é importante.

Ainda nos falta viver metade da vida.

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terça-feira

Respirar


zen - first breathe


Nunca me achei uma super mulher, muito pelo contrário.

Sempre duvidei mais de mim e das minhas capacidades do que das de qualquer outra pessoa. 
Sei sempre quando dou um passo maior do que a perna, quando tenho mais olhos do que barriga, quando me estou a afogar.
Nestas alturas não baixo os braços, mas muitas vezes mesmo quando começo a desembaraçar-me dos fios, quando começo a vir à tona, ouço o grilinho aqui do lado esquerdo a bichanar-me ao ouvido: Olha que estás prestes a dar o berro; não vais ser capaz. E às vezes acredito nele. Quase sempre.
Quero muito acreditar em mim, quero acreditar que sou capaz de fazer tudo aquilo a que me proponho. Quero acreditar que vou ter tempo para tudo, até para dormir e descansar. Até para fazer nada.
Às vezes tenho, outras não.
Agora não.
Não me achando uma super mulher, e duvidando de tudo o que sou, de tudo o que faço, reconheço que também tenho a capacidade de ir em frente, mesmo quando estou cansada, quando ando dias a fio com a vista turva e a cabeça zonza de tanto sono, quando faço das tripas coração para conciliar a vida com o trabalho. Vou continuando em frente porque tenho de continuar, porque o trabalho não se faz sozinho, os objetivos não se alcançam com sonhos e as palavras são para se cumprir.
Mas fico exausta.
Procuro relativizar, criar tempo, fazer escolhas e ir em frente.
Com sono, com fome emocional, com a pressão que me comprime o peito, com dores aqui e ali e em todo o lado. Mas continuo. Abdico do que for preciso. Até de mim.
E continuo. 
Por vezes não sei como continuo e quando chego ao fim olho para trás para me certificar de que não me esqueci de nada - no trabalho então há quase sempre uma fase em que duvido se fiz tudo o que tinha de fazer (naturalmente), porque parece que mergulho num buraco negro e passo do meio dos livros para o fim quase num estado de dormência, de inconsciência, sei lá. 
Não têm conta as vezes em que revi os números das páginas um por um porque acho que não as devo ter feito todas, porque efetivamente não me lembro de as ter feito todas. Mas fiz. Faço sempre. Fui em frente. Continuei.
Mesmo que às vezes me esqueça de respirar.

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sábado

São e pronto.

Extraños





Isto de ter amigos é uma coisa complicada. Mas não devia ser. 
Amigos são aquelas pessoas que se escolhe ou que nos caem ao colo e se transfromam numa outra família. Amigos são - deviam ser - aquelas pessoas com quem não temos filtro, com quem se pode falar de tudo, com quem não é preciso estar a medir palavras. Diz-se e pronto. Ouve-se e pronto. Os amigos não precisam de andar sempre colados uns aos outros, mas sabem que estamos lá, que estamos aqui. Estamos onde for preciso. Acompanhamos os momentos bons e os menos bons e esperamos a mesma coisa do outro lado. Somos amigos quando precisam de nós porque estão no fundo e quando já não precisam tanto porque vieram à tona. Os amigos (os de verdade) não são para as ocasiões. São e pronto.
Também acho que a amizade tem prazo de validade. Os laços de amizade são mais ou menos profundos consoante as circunstâncias e podem fortalecer-se ou desvanecer-se de acordo com a natureza das pessoas. Aceito-o com naturalidade e eu própria vou renovando o estatuto de «amiga» que mantenho com os outros. Não tenho lugares contados para preencher com amigos, por fazer novos não preciso de me desfazer dos antigos. Na verdade, se forem realmente amigos vão passando para um canto especial do coração, que tem sempre espaço para mais um. Para mim, as pessoas não são descartáveis nem facilmente substituíveis. Mas esta palavra, «amigo», tem gradações, não é igual para toda a gente. Porque somos todos diferentes, porque as nossas vidas e princípios são diferentes e encaramos os mesmos assuntos de formas distintas. E tudo bem. Ninguém tem de ser igual a ninguém.
O que me custa é ter de medir palavras, ter de escolher o que posso e não posso dizer, ter de continuar a classificar de amizade uma coisa que já não o é. Custa-me muito, mesmo muito, dar sem receber - porque se há coisa que a amizade não é é unilateral; isso é outra coisa, tem outro nome, outras regras. Custa-me a forma como algumas pessoas olham para as outras como se fossem bens descartáveis, que usam até à exaustão enquanto precisam e que relegam para um cantinho quando já não precisam tanto. 
Porque quando isto acontece percebe-se que afinal não era assim uma amizade tão grande, tão verdadeira, tão importante. 
Se fosse não deixava de ser.

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