sexta-feira

What goes around...

Karma

Podia dizer que acredito piamente que quando cuspimos para o ar mais cedo ou mais tarde cai-nos em cima, mas é mais elegante e mais zen dizer que acredito no poder e na infalibilidade do karma!
Porque acredito mesmo.
Vejo-o comprovado em muitos aspetos da minha vida fisica e emocional. 
Gosto muito de pensar que sou uma pessoa consciente, científica, teórica, muito moderninha que não acredita em charlatanices e banhas da cobra. Sucede que neste caso o meu conhecimento é absolutamente empírico.
Posso provar por A+B a forma como o karma funciona na minha vida. Seja nas questões pessoais, nas relações de amizade, na forma como me relaciono com os outros, seja nas questões profissionais, na forma como encaro o trabalho. Até na forma como trato os outros, como reajo às situações, nas opiniões que formo sobre o que me rodeia, na escolha consciente se devo dar as minhas opiniões ou não (na maior parte das vezes, não) - vejo esta lei da retribuição em tudo! 
Tudo regressa a mim na justa forma em que o liberto para o mundo. 
Por isso, apesar de algumas desilusões (que naturlmente fazem parte da vida e que acredito que serão espelhadas no lado de lá) até provas em contrário prefiro manter-me fiel a mim mesma, acreditar que é com bondade e generosidade, com amor e alegria que se leva a vida.
Se não for por mais nada, que seja porque sinto que estou do lado onde me sinto mais confortável. 

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sábado

Metade da vida


Fuck the fake shit !

Ontem estava a falar com uma das minhas amigas mais queridas sobre como é libertador permitirmo-nos ser exatamente quem somos. Deixar de mudar pelos outros. Deixar de fazer fretes. Deixar de acolher pessoas que não nos acrescentam nada, que não nos respeitam como somos e que nos fazem mal.
Lamentámos que este entendimento, este amor-próprio só nos tenha chegado depois dos 40. Teria sido tão mais fácil viver e enfrentar a vida a saber que podemos acolher os nossos defeitos, as nossas virtudes, as nossas ideias, a nossa forma de amar e de receber - de exigir - o amor e o respeito. 
Teria poupado tanta amargura. Porque isto de sermos senhoras nossas é uma arma com um poder indescritível nesta demanda de tranquilidade, amor e felicidade que todos perseguimos - uns mais conscientemente do que outros.
É bom perceber que quem gosta de nós como somos, quem respeita as nossas opções - mesmo que não concorde com elas - quem nos reconhece a liberdade de sermos genuínos, é porque gosta de nós de verdade. São estas as pessoas que devemos manter ao nosso lado. São estas as pessoas que valem a pena.
As outras deixamo-las ir às suas vidas, com as suas ideias, com as suas formas de encarar o mundo e as pessoas. 
Não somos iluminadas nem descobrimos a roda, mas ontem falámos sobre como nunca é tarde para encontrarmos segurança, confiança, amor por nós. 
Sobre como já não temos medo de SER.
E parecendo que não esta perceção é importante.

Ainda nos falta viver metade da vida.

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terça-feira

Respirar


zen - first breathe


Nunca me achei uma super mulher, muito pelo contrário.

Sempre duvidei mais de mim e das minhas capacidades do que das de qualquer outra pessoa. 
Sei sempre quando dou um passo maior do que a perna, quando tenho mais olhos do que barriga, quando me estou a afogar.
Nestas alturas não baixo os braços, mas muitas vezes mesmo quando começo a desembaraçar-me dos fios, quando começo a vir à tona, ouço o grilinho aqui do lado esquerdo a bichanar-me ao ouvido: Olha que estás prestes a dar o berro; não vais ser capaz. E às vezes acredito nele. Quase sempre.
Quero muito acreditar em mim, quero acreditar que sou capaz de fazer tudo aquilo a que me proponho. Quero acreditar que vou ter tempo para tudo, até para dormir e descansar. Até para fazer nada.
Às vezes tenho, outras não.
Agora não.
Não me achando uma super mulher, e duvidando de tudo o que sou, de tudo o que faço, reconheço que também tenho a capacidade de ir em frente, mesmo quando estou cansada, quando ando dias a fio com a vista turva e a cabeça zonza de tanto sono, quando faço das tripas coração para conciliar a vida com o trabalho. Vou continuando em frente porque tenho de continuar, porque o trabalho não se faz sozinho, os objetivos não se alcançam com sonhos e as palavras são para se cumprir.
Mas fico exausta.
Procuro relativizar, criar tempo, fazer escolhas e ir em frente.
Com sono, com fome emocional, com a pressão que me comprime o peito, com dores aqui e ali e em todo o lado. Mas continuo. Abdico do que for preciso. Até de mim.
E continuo. 
Por vezes não sei como continuo e quando chego ao fim olho para trás para me certificar de que não me esqueci de nada - no trabalho então há quase sempre uma fase em que duvido se fiz tudo o que tinha de fazer (naturalmente), porque parece que mergulho num buraco negro e passo do meio dos livros para o fim quase num estado de dormência, de inconsciência, sei lá. 
Não têm conta as vezes em que revi os números das páginas um por um porque acho que não as devo ter feito todas, porque efetivamente não me lembro de as ter feito todas. Mas fiz. Faço sempre. Fui em frente. Continuei.
Mesmo que às vezes me esqueça de respirar.

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sábado

São e pronto.

Extraños





Isto de ter amigos é uma coisa complicada. Mas não devia ser. 
Amigos são aquelas pessoas que se escolhe ou que nos caem ao colo e se transfromam numa outra família. Amigos são - deviam ser - aquelas pessoas com quem não temos filtro, com quem se pode falar de tudo, com quem não é preciso estar a medir palavras. Diz-se e pronto. Ouve-se e pronto. Os amigos não precisam de andar sempre colados uns aos outros, mas sabem que estamos lá, que estamos aqui. Estamos onde for preciso. Acompanhamos os momentos bons e os menos bons e esperamos a mesma coisa do outro lado. Somos amigos quando precisam de nós porque estão no fundo e quando já não precisam tanto porque vieram à tona. Os amigos (os de verdade) não são para as ocasiões. São e pronto.
Também acho que a amizade tem prazo de validade. Os laços de amizade são mais ou menos profundos consoante as circunstâncias e podem fortalecer-se ou desvanecer-se de acordo com a natureza das pessoas. Aceito-o com naturalidade e eu própria vou renovando o estatuto de «amiga» que mantenho com os outros. Não tenho lugares contados para preencher com amigos, por fazer novos não preciso de me desfazer dos antigos. Na verdade, se forem realmente amigos vão passando para um canto especial do coração, que tem sempre espaço para mais um. Para mim, as pessoas não são descartáveis nem facilmente substituíveis. Mas esta palavra, «amigo», tem gradações, não é igual para toda a gente. Porque somos todos diferentes, porque as nossas vidas e princípios são diferentes e encaramos os mesmos assuntos de formas distintas. E tudo bem. Ninguém tem de ser igual a ninguém.
O que me custa é ter de medir palavras, ter de escolher o que posso e não posso dizer, ter de continuar a classificar de amizade uma coisa que já não o é. Custa-me muito, mesmo muito, dar sem receber - porque se há coisa que a amizade não é é unilateral; isso é outra coisa, tem outro nome, outras regras. Custa-me a forma como algumas pessoas olham para as outras como se fossem bens descartáveis, que usam até à exaustão enquanto precisam e que relegam para um cantinho quando já não precisam tanto. 
Porque quando isto acontece percebe-se que afinal não era assim uma amizade tão grande, tão verdadeira, tão importante. 
Se fosse não deixava de ser.

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quinta-feira

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Não sei ao certo quando isto começou, quando se tornou mais generalizado e tenho quase a certeza de que o problema é meu, que de alguma forma se me esgotaram as reservas de paciência, que a tolerância (palavra e noção que detesto visceralmente por ser mais altiva e arrogante do que bondosa e benéfica) é coisa que não consta no meu catálogo de características, mas as pessoas cansam-me.
As pessoas cansam-me tanto.
Salvo raras exceções, salvo alguns cantos preenchidos no coração, as pessoas cansam-me, esgotam-me, exasperam-me, irritam-me e fazem-me revirar os olhos com tanta força que chego a conseguir contar as sinapses. 

Tenho quase a certeza de que o problema é meu.

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It was worth the ride



Ontem acabei o livro When Breath Becomes Air, uma espécie de biografia de Paul Kalanithi, neurocirurgião e neurocientista que morreu com cancro aos 38 anos. Deixou, além do livro recém acabado, uma filha de oito meses e uma mulher que teve de aprender a viver sem ele.
Nem consigo quantificar o quanto gostei deste livro. Vi espelhados ali todos os meus medos. 
O de morrer, o de poder ver a pessoa que mais amo no mundo morrer, a possibilidade de ir ficando sem as capacidades cognitivas, a iminência da dor a sério, a constatação de que o meu tempo chegou ao fim, ou pior do que tudo isto junto, o medo de ter de aprender a viver sem o Nuno.

Há muito tempo que me decidi a deixar de pensar no futuro e de o imaginar. É uma coisa que me causa uma ansiedade medonha, porque em dois segundos a minha imaginação começa a galopar desenfreada e quando dou por mim já estou a chorar porque um dia o Nuno vai ter de morrer, como todos nós. 
É um esforço constante não pensar, tentar não antecipar, não imaginar como vai ser. Mas é um esforço que faço com dedicação e empenho e tenho vivido bem melhor.
Ontem permiti-me uma pausa neste esforço e pus-me no lugar da mulher do Paul Kalanithi, que acaba o livro por ele com uma reflexão maravilhosa: uma relação saudável, um amor de verdade sobrevive a tudo, até à morte. Diz que tem saudades do marido todos os dias. Que procura ter uma vida ativa e significativa, que lhe custa estar sem ele, mas que a viagem que fizeram juntos valeu a pena. 
Acho que seria esta a minha conclusão também. Valeu a pena. 

Este livro é triste, evidentemente, porque além de ser escrito pela mão de alguém que morreu, é muito honesto, duro, despojado de artifícios. A linguagem, mesmo quando se fala de medicina, é emotiva, comovente.

Mas não é só um livro triste. É esperançoso e é redentor.
Dá vontade de viver. Ensina-nos a não morrer antes do tempo.
É isto que retenho dele, a vontade de viver uma vida bonita, cheia de amor e emoção.
Só assim valerá a pena.

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Seis da tarde


Todos os dias, mas todos os dias mesmo por volta das seis horas ouço os meus vizinhos do lado a chegarem com a filha, que às vezes vem a contar o que fez na escola durante o dia, às vezes a chorar, às vezes a berrar, mas todos os dias por volta das seis os ouço a abrir a porta.
Podia acertar o relógio pela sua chegada.
E fico a pensar como será viver uma vida com horários, com ritmos, com rotinas.
Como será entrar em casa e não ter trabalho para fazer - ou que pode ser feito.
Como será chegar à sexta-feira - às seis da tarde - e saber que durante dois dias inteirinhos e mais uma noite a vida é só nossa. Mesmo que os miúdos chorem, mesmo que façam birra, mesmo que o tempo esteja chato ou o dinheiro curto e não dê para sair.
Como será estar sentado no sofá e não pensar que se podia estar a adiantar o trabalho? Ou a correr atrás do prazo que está a passar?

Como será ter a clareza suficiente e a paz de espírito, a segurança, para estabelecer um horário para trabalhar e outro para descansar? 


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segunda-feira

Nova linguagem

Blah, Blah, Blah is right. We are totally feeling the post holiday weekend today. But, we are up and running again! We love this striped illustrated graphic with pink typography.

Tenho de encontrar uma forma nova de falar comigo, uma linguagem diferente que me deixe motivada e uma que não me deixe enganar-me a mim mesma.
Penso sempre que basta dormir seis horas por noite, que na verdade chega perfeitamente e que o dia seguinte vai correr bem apesar do sono.
Penso sempre que vou ver só mais um episódio no Netflix (que ainda não sei se é uma maldição ou uma bênção).
Penso sempre que vou só ler meia dúzia de páginas, ou só até ao fim do capítulo , ou só mais uma ou duas e pronto.

Penso sempre que hoje é que vai ser, vou bater recordes de páginas, vou fazer isto tudo muito depressa, muito bem feitinho e ainda vou ter tempo para fazer uma hora inteira de yoga e de fazer o jantar, e de ir ao ginásio e de ver o Stephen Colbert e depois ver um (só um) episódio no Netflix e depois ler umas (poucas) pagininhas e depois dormir - nem que seja seis horas.

Estou tão cansada das minhas tretas.

Estou mesmo.

terça-feira

Been there done that... Because apparently I don't learn.



Sou daquelas pessoas idiotas que diz com frequência:
Ah, eu cá trabalho muito bem sob pressão. É até quando trabalho melhor!

Digo e como se isto não fosse prova suficiente da minha idiotice, quando o digo estou mesmo a falar a sério, ou seja, sinto mesmo que trabalho bem sob pressão, com os dias contadinhos, com X páginas para fazer por dia, com seis horinhas de sono, porque afinal quem é que precisa de dormir oito horas por noite (EU!! Eu preciso!).
Acredito que consigo fazer tudo, que consigo trabalhar 12 horas por dia, sem folgas até chegar ao fim dos trabalhos se for necessário.

Parva.

É evidente que o trabalho acaba por ser feito, e na maior parte das vezes dentro dos prazos. Mas o resto, bem o resto fica todo para trás.
E por resto quero dizer a vida. As horas de sono; as horas de ginásio, as horas de não fazer nada.
As horas em que me apetece estar deitada em cima da cama só a pensar. As horas para namorar.
Depois começam as dores de peito e de cabeça, as insónias, o apetite a voar, os quilos a desaparecer. 
As lágrimas a aparecer por tudo e por nada (principalmente por nada). 

E juro sempre que da próxima vai ser melhor, que vou planear melhor. 
O meu problema não é ser preguiçosa, que não sou. Mas nem sempre planeio bem as coisas. Nem sempre digo que não quando devia dizer. Nem sempre tenho consciência dos meus limites.

Penso sempre: Eu cá me arranjo. Vou conseguir, nem que não durma! 
Eu trabalho bem sob pressão...




#Apple iPhone Facepalm Emoji Sticker (Round) - #emoji #emojis #smiley #smilies


Sensibilidade e cansaço

kitty:

Não sei se é do cansaço ou dos tempos instáveis em que vivemos mas parece que ando sempre a engolir as lágrimas. Comovo-me com tudo.
Parece que toda a gente anda aflita com alguma coisa. Com pouco trabalho, com muito trabalho; com alguma doença; com falta de dinheiro; com falta de amor; com falta de segurança. 
Achava que estava a ficar cada vez mais cínica, andei aí uns tempos em que me sentia a endurecer, mas ultimamente tudo me deixa engasgada. As crianças que precisam de medula; os animais abandonados que precisam de dono; as pessoas que morrem nesta guerra merdosa entre povos e religiões que deviam coexistir pacificamente; o Totti que deixou de jogar e chorou como uma criança. Uma música, um abraço, um grito velado por socorro e atenção. Tudo, literalmente tudo me dá vontade de chorar. Até escrever isto.
Ando há semanas (on and off) às voltas com um trabalho que me está a matar aos bocadinhos, que instiga em mim instintos assassinos e - evidentemente - me dá uma vontade imensa de chorar. Estou tão cansada; estou farta; não durmo bem; não tenho apetite nenhum. Sento-me para trabalhar cheia de coragem e ao fim de duas horas pareço um balão furado, sem força nem ar.
O meu lema nestes casos é «Uma frase de cada vez», porque realmente não posso fazer mais do que isso, mas todas as frases parecem arrancadas a ferros. 
Quero tanto despachar-me disto, esquecer-me deste texto, avançar com as coisas maravilhosas que tenho para fazer a seguir, mas o meu progresso é tão lento, tão esforçado, tão emocionalmente cansativo, que chego ao fim do dia com a sensação de que não fiz nada de jeito. Digo muitas vezes que estou a fazer o melhor que posso, mas desta vez o meu melhor não chega.
E depois, claro, vejo uma fotografia de um gatinho com ar desolado e fico toda comovida porque o gato é fofinho e eu preciso mesmo de mais gatos cá para casa, sobretudo de gatos bebés.
Leio as notícias e fico preocupada com os escalões do IRS. Vejo as atualiações do Twitter e temo que um dia destes rebentem por aí bombas nucleares a torto e a direito porque há um Neandertal determinado a dar cabo do mundo. Vejo o Justin Bieber (o Justin Bieber, senhores!) a dizer que o que vai salvar o mundo é o amor e fico para morrer de emoção. Estremeço porque ninguém está preocupado com o que se passa no Sudão do Sul, na Nigéria ou na Somália; é longe, está fora das rotas turísticas e de qualquer maneira eles são muitos. 
Entretanto o Montepio está a dar o berro e continuo a pagar-lhes cotas de associada.

Tudo me dá vontade de chorar.
E agora tenho de voltar ao trabalho, depois de secar os olhos que já nem estou a ver bem.


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segunda-feira

Para a próxima...




This is why when I'm bringing a new topic to a person, I start with "Did I tell you about BLANK already?":


Ontem em conversa com o Nuno disse que acho que sou uma falsa extrovertida. 
Na verdade não acho, tenho a certeza. Às vezes sinto que a minha lata e descontração são uma capa, uma fachada.
Não sou a tímida convencional, mas há ocasiões em que me sinto presa dentro de uma timidez que nem as pessoas que me conhecem me atribuem, porque falo com toda a gente, seja os senhores do restaurante, as meninas das lojas, as pessoas no ginásio, no autocarro, nas finanças, seja quem for. Se é preciso falar, eu falo sem medos. 
Não tenho problemas nenhuns em falar em público, nem a dar-me a conhecer aos outros a nível profissional. 
Se analisar a coisa por níveis, diria que a um nível superficial sou extrovertida, faladora e desenrascada. Não tenho problemas em dar-me com ninguém. Exprimo-me bem, não tenho medo de falar, na maior parte das vezes nem sequer fico nervosa se tiver de falar, sei lá, numa reunião, numa conferência, num grupo que não conheço. Falo e pronto.
Mas depois há situações em que bastava uma palavra e não sou capaz de dizer NADA! Não sei porquê.
Por exemplo, um grupo de pessoas que conheço, participou num evento em que também gostava de ter participado. A ideia pareceu-me muito gira, desafiante e diferente do que estou habituada a fazer. Conheço toda a gente que participou, algumas das pessoas são até minhas amigas e bastava ter dito - Olha, também gostava de ir! - para me inscreverem na equipa. Mas não fui capaz de dizer nada. Estive com elas dois dias antes, estavam a falar do assunto e eu não fui capaz de abrir a boca, embora tenha ficado cheia de pena por não ir! 
Que estupidez, não é? Se for preciso estou meia hora a falar de coisas sem jeito nenhum, e depois não tenho coragem para pedir que me incluam numa atividade de grupo! 
E isto é só o último exemplo, o que me fez pensar na questão, mas já me aconteceu tantas, tantas vazes.
Parece uma coisa de adolescentes, não de pessoas daqui a pouco de meia-idade! 
Não sei bem porque é que isto me acontece, se tenho medo de rejeição, se não quero ser inconveniente, se não me quero impôr às pessoas, mas neste exemplo em concreto, tenho a certeza absoluta de que ninguém me ia dizer que não podia ir, que não havia lugar, que não me queriam lá. Muito pelo contrário.
Isto que sinto não é uma timidez incapacitante é só chata, mas como é que a ultrapasso?
Como é que eu faço isto? 

Quando perguntei ao Nuno ele respondeu com toda a simplicidade - Então, para a próxima dizes que também queres ir!

Pois, é isso.

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terça-feira

Queixar-me de barriga cheia

Going into this post idea (which was just, you know, how to organize your books), I had no idea that I would find an entire online community dedicated to that #shelfie life. What in the eff is a #shelfie, you ask? It’s a photo of a bookshelf that is so aesthetically pleasing that it’s hard to believe it is in someone’s home and not just an interior design magazine. It basically shows *the* way to organize your books and to show them off to the world.:


A minha onda é tradução literária. 
Adoro frases compostas, compridas, intrincadas, descritivas. Porque são lindas! Porque dizem muito e porque sei deixá-las bonitas também em português. (Tenho muito orgulho no meu trabalho e a falta de modéstia também é defeito, além de uma enorme hipocrisia!)
Também gosto de traduzir culinária, mas isso é porque sou gulosa e gosto de comer!
Adoro traduzir livros para crianças! Adoro tudo, os temas, as cores e a linguagem mais simples mas sem ser simplista - os miúdos precisam de ir lendo palavras novas para as aprenderem!

Agora... às vezes cai-me assim um texto mais estéril ao colo e fico sem saber bem o que lhe fazer! 
Se fosse tradução técnica, havia uma metodologia a aplicar.
Mas não é. 
É «literatura»... Só ao pé disto, o Deserto do Atacama é um belo jardim florido!
O único consolo que tenho é que já não falta tudo... três dias, vamos apontar para três dias de sofrimento e seca. 

Acabei de entregar um dos livros mais bonitos que alguma vez me passou pelas mãos e agora isto!

O que vale é que depois vou mergulhar num maravilhoso mar de metáforas, antíteses e perífrases!
Ah, o que eu adoro perífrases!

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quarta-feira

Tempus fugit

"Time flys when you're pinning." JRH Umbra-tile-tempusfugit. Paul Bommer faux Delft Tile. Tempus Fugit. copyright © Paul Bommer:

Sei que a generalidade das pessoas passa a vida à espera que chegue a sexta-feira, como se a sexta-feira fosse aquele dia mágico em que todos os problemas da vida e do mundo em geral desaparecem ou se resolvem milagrosamente. Compreendo, quase ninguém gosta de trabalhar, trabalhamos porque é o que as pessoas fazem e é preciso pagar o empréstimo da casa e do carro e enfim, tem de ser, é assim a vida. 
Eu quando tinha uma vida normal, quando só estudava, também gostava da sexta-feira, também sentia a «magia de sexta-feira à noite».
Mas depois passou-me.
Quem trabalha com prazos como eu, não tem noção de dias de semana, de fim de semana, de feriados e as pontes ou tolerâncias de ponto são para aqueles sortudos que recebem certinho ao fim do mês. Eu recebo o que produzo, por isso se produzir muito recebo mais, se produzir pouco, recebo menos.
Se não produzir, não recebo.
Um trabalhador independente como eu dá por si à quarta-feira quase em choque por JÁ ser quarta-feira. QUARTA-FEIRA?! Como assim já é quarta-feira, se ainda ontem era sábado!
Para onde é que foram os meus dias? 
Sexta é daqui a dois dias?!! Como assim? SÓ faltam dois dias para a semana chegar ao fim?! COMO ASSIM?!! Não pode ser.
A pouca noção que tenho dos dias de semana existe porque também me regulo pelos prazos e ritmos das pessoas com quem trabalho, mas para mim, tanto posso folgar a uma quarta-feira e trabalhar ao domingo - é igual. Gosto de todos os dias da semana. Sobretudo se puder folgar!

Gosto das segundas-feiras precisamente porque são o início da semana e me dão a ideia de que tenho muito tempo, muitos dias, se bem que até isso é uma ilusão. É um dia como os outros, igualzinho à sexta-feira, só que mal amado, injustiçado. Coitadinhas das segundas.

Por isso, não, já não me lembro da «magia da sexta-feira à noite», já não sei o que é ter fins de semana certinhos, não sei o que é ter um horário, uma rotina de trabalho, nem sei o que é receber ao fim do mês.

Só sei que hoje já é quarta-feira e por mim podia ser segunda - da semana passada!

O tempo foge-me, é o que vos digo. Pisco os olhos e ele foge!

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terça-feira

Mais um dia triste




É sempre triste ouvir notícias de guerras, revoltas políticas, catástrofes naturais, atos terroristas em terras longínquas, milícias armadas algures nas florestas tropicais. É preocupante, fico sempre com um aperto no peito, penso sempre na dor das pessoas, no que sentem os familiares, os amigos. Mas normalmente são (eram) acontecimentos distantes.
Esta guerra instalada contra cidades europeias onde a vida decorre pacificamente, com toda a normalidade que estou habituada a ver na cidade onde vivo é absolutamente aterrorizante. Porque é imprevisível. Não vivemos num cenário de guerra ou instabilidade social em que os atos de terror são expectáveis - por muito lamentáveis que sejam. Vivemos em paz, as nossas sociedades são organizadas, bem ou mal, com maior ou menor desigualdade não é isso que que está em causa.
Sentimo-nos seguros para ir a um estádio de futebol, para correr pela rua, para estar na praia de olhos fechados, para ir ao jardim zoológico ou a um concerto.
Esta guerra de terror quer tirar-nos a paz, a placidez com que encaramos o dia a dia e por muitos discursos a instigar a união e a resistência, o sentido de comunidade e a solidariedade, a verdade é que sinto medo.

Porque já ninguém sabe quando ou onde é o próximo, como vai ser e quem será o alvo.
Já não é só em terras distantes que a barbárie acontece. Está aqui, no nosso quintal, debaixo dos nossos narizes.
E o medo vai ganhando terreno.

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quinta-feira

Bored


YES! -sc                                                                                                                                                                                 More:


A minha fome quase nunca é física.
Quero dizer, se estiver demasiado tempo sem comer, se fizer um esforço físico puxado ou se fizer uma refeição mais leve, claro que fico com fome, mas é raro chegar àquele ponto em que já tenho um ratito na barriga. Procuro comer bem, de forma saudável e equilibrada mas sem fundamentalismos e permitindo-me as coisas que mais prazer me dão. 
O que me assalta muito frequentemente é a fome emocional. Sei que a minha relação com a comida é maioritariamente emocional. E só tenho duas formas de agir.
Quando estou nervosa, triste, stressada ou a braços com um trabalho chato, exigente ou apenas mau, das duas uma: perco por completo o apetite e até me esqueço de comer ou como desenfreadamente tudo o que me aparece à frente, faço as combinações mais estranhas (nozes com triângulos de queijo?!) e ainda assim continuo com fome.
Porque na verdade não é fome. É muita coisa, mas não é fome.
Neste momento estou a acabar um trabalho em que as frases pura e simplesmente não fluem. Quero acabá-lo para me ver livre disto e quanto mais o quero acabar, mais lenta me sinto. Vou fazendo, mas queria fechar os olhos, contar até dez e quando os abrisse Pufft! - o trabalho estava feito! 
Já experimentei e não funcionou.
Tenho de continuar a traduzir da forma tradicional.

E isto está a dar-me uma fome dos diabos.

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Metaforicamente falando

You gotta stop watering dead plants!    "An Engeldark valentine" says wonderful artist Mary Engelbreit:


A respeito da questão de não guardar ressentimentos e de esquecer efetivamente as sacanices dos outros, há várias conclusões a retirar e outras estratégias que para mim acompanham ou complementam o tratamento indiferente.

Esquecer ou decidir arrumar fora do coração as mesquinhices dos outros não é um sinal de que se é brando de caráter, que se é parolo, que deixamos que nos comam as papas na cabeça. Escolher não pagar as merdas na mesma moeda é tão somente um atestado da nossa bondade emocional, da nossa maturidade e da nossa elevação moral. 
É aquela cena de andar a chafurdar na lama com os porcos - perdemos sempre, porque eles já estão habituados.
(Pode parecer arrogância, e se calhar até é, mas gosto de pensar que conhecer o nosso valor também é importante.)
Quando decidimos que não vale a pena ser mesquinho, que não é da nossa natureza, estamos a certificar-nos de que podemos dormir melhor de noite. Libertando esse tipo de sentimentos menores, garantimos que aquilo que deixamos entrar e ganhar lugar dentro de nós são só as coisas boas. As menos boas, as más, existem e fazem-se notar, claro que sim, mas não precisamos de as deixar tomar assento.
Ser bonzinho não é ser palerma, é ser bom. É ser melhor.

Depois disto chega a parte em que por sermos «obrigados» a conviver com as pessoas é preciso encontrar estratégias.
Já disse aqui que a minha é recorrer à indiferença, com educação mas sem calor. Há de haver outras certamente. Mas a minha, que quero ser boa e depois melhor, passa por deixar de regar a planta. 

A certa altura é preciso deixar de regar uma planta que já está morta. 

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quarta-feira

Cordial e indiferente


Less... Relevant... I still have to pray for your continued success though... T:


Não me considero uma pessoa mesquinha, não sou de grandes melindres, não me ofendo por dá cá aquela palha e por instinto de autopreservação ou por estupidez natural tenho tendência para me esquecer das coisas chatas que me acontecem.
Mas...
Tenho muito pouca paciência para a cobardia e a falta de integridade em geral.
Para quem diz que faz e não faz;
Para quem só consegue olhar para os outros e não vê o espelho que está à sua frente;
Para quem só «vê» os outros quando lhe convém;
Para quem é mesquinho e embirrante só porque sim;
e
Para quem é azedo e não faz um esforço por mudar.


Considero-me uma pessoa simpática, afável, boa onda. Dou segundas, terceiras e às vezes quartas oportunidades porque acredito que toda a gente tem um fundo bom e porque no fundo (passe o pleonasmo!) é o que faço comigo - dou-me infindáveis oportunidades para ser melhor.
Mas, uma vez borrada a pintura, não há volta a dar-lhe. 
Podem aparecer-me pintados de ouro que não sou capaz de voltar ao que era antes; parece que crio uma espécie estranha de intolerância, uma alergia e passo a encarar as pessoas apenas por aquilo que mostram, em vez de estar disponível para ver o que pode existir por baixo. 
Sei que toda a gente tem muitas camadas, boas e menos boas, mas se alguém escolhe mostrar umas e não outras, o esforço de procurar pelas boas já não me compete a mim. 

Como me considero uma pessoa calorosa até para as pessoas que não conheço, para mim o tratamento cordial e indiferente é na verdade a forma mais distante que encontro para funcionar em sociedade. 
Esta é de resto uma palavra pavorosa: cordial. 
Nem é carne nem é peixe. Não aquece nem arrefece. Está ali. Existe. Não é nada nem deixa de ser.

É cordial, quase transparente não fosse considerar-me também uma pessoa educada.

*
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Demandas impossíveis




Fazendo um exercício puramente individualista e partindo do princípio de que o que desejo de bom para mim é o mesmo que desejo às pessoas que amo, se me perguntarem qual é o objetivo primordial da minha vida respondo que é ser feliz.
Acho que terei isto em comum com a esmagadora maioria das pessoas, porque não acredito que alguém seja infeliz porque quer.
A minha noção de felicidade engloba todos os tipos de saúde (a saúde física, a afetiva e até a social e a financeira). As pessoas mais velhas costumam dizer que havendo saúde o resto arranja-se e é verdade.
A minha noção de felicidade também implica ter um trabalho que me realize, que me ensine muitas coisas e que me permita ter tempo (e dinheiro) para viver. Ou seja, o trabalho não pode servir só para ganharmos dinheiro para pagar contas e impostos, para comprar batatas e cenouras e pouco mais. 

Excluindo todos os fatores externos, acho que a felicidade vem de dentro; dos nossos sentimentos e expectativas em relação às coisas e às pessoas que nos rodeiam, dos pensamentos que escolhemos albergar e da forma como olhamos para nós e para o mundo. E é esta parte que exige mais trabalho.
Sempre disse que nada é tão verdadeiramente nosso como os nossos pensamentos. Ninguém manda nos pensamentos de uma pessoa saudável. São nossos, podem ser o que quisermos, podem apresentar-se como quisermos porque não precisamos de os transmitir a ninguém. São nossos. Mas podem ser influenciados ou condicionados.

Ultimamente parece que a Humanidade se embrenhou nesta demanda da felicidade - eu incluída. Toda a gente tem dicas e conselhos para os outros serem felizes, toda a gente escreve frases inspiradoras a «ensinar» a felicidade. Parece que só nos sentimos completos, pessoas válidas se formos sempre muito felizes e estivermos sempre de bem com a vida.
Acho que durante muito tempo caí nesta ratoeira. Na de me comparar com outras pessoas (cujas vidas completas - e pensamentos - desconheço inteiramente), na de querer que o meu mundo seja sempre cor de rosa e habitado por coelhos de angorá e unicórnios; na de desejar que tudo fosse perfeito e imaculado. Eu não sou, ninguém é. 
Por isso, a realização de que nada é perfeito e imaculado foi uma coisa que me custou a engolir. 
Conseguir processar e aceitar que ninguém é feliz todo o dia, todos os dias, é das conquistas mais libertadoras que posso fazer. 
Deixar escorregar dos ombros a pressão de que preciso de andar a sorrir e a saltitar feliz e contente todos os segundos do dia é maravilhoso. Porque não preciso. Não consigo. Não quero.
De vez em quando os momentos tristes, os pensamentos tristes metem-se no nosso caminho, caem-nos em cima de repente, assaltam-nos o pensamento. É mesmo assim. É aceitar, processar e passar à frente. Amanhã é outro dia.

Acho que devo perseguir os momentos felizes, sim, tentar reunir tantos quantos consiga, mas não posso atribuir-lhes a responsabilidade da felicidade absoluta.

Porque a felicidade absoluta é tão real como os unicórnios.

Some days are just like that, especially the rainy ones. Relating to Sadness from Disney Pixars #InsideOut Disney UK on Twitter:
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