quinta-feira

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Não sei ao certo quando isto começou, quando se tornou mais generalizado e tenho quase a certeza de que o problema é meu, que de alguma forma se me esgotaram as reservas de paciência, que a tolerância (palavra e noção que detesto visceralmente por ser mais altiva e arrogante do que bondosa e benéfica) é coisa que não consta no meu catálogo de características, mas as pessoas cansam-me.
As pessoas cansam-me tanto.
Salvo raras exceções, salvo alguns cantos preenchidos no coração, as pessoas cansam-me, esgotam-me, exasperam-me, irritam-me e fazem-me revirar os olhos com tanta força que chego a conseguir contar as sinapses. 

Tenho quase a certeza de que o problema é meu.

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It was worth the ride



Ontem acabei o livro When Breath Becomes Air, uma espécie de biografia de Paul Kalanithi, neurocirurgião e neurocientista que morreu com cancro aos 38 anos. Deixou, além do livro recém acabado, uma filha de oito meses e uma mulher que teve de aprender a viver sem ele.
Nem consigo quantificar o quanto gostei deste livro. Vi espelhados ali todos os meus medos. 
O de morrer, o de poder ver a pessoa que mais amo no mundo morrer, a possibilidade de ir ficando sem as capacidades cognitivas, a iminência da dor a sério, a constatação de que o meu tempo chegou ao fim, ou pior do que tudo isto junto, o medo de ter de aprender a viver sem o Nuno.

Há muito tempo que me decidi a deixar de pensar no futuro e de o imaginar. É uma coisa que me causa uma ansiedade medonha, porque em dois segundos a minha imaginação começa a galopar desenfreada e quando dou por mim já estou a chorar porque um dia o Nuno vai ter de morrer, como todos nós. 
É um esforço constante não pensar, tentar não antecipar, não imaginar como vai ser. Mas é um esforço que faço com dedicação e empenho e tenho vivido bem melhor.
Ontem permiti-me uma pausa neste esforço e pus-me no lugar da mulher do Paul Kalanithi, que acaba o livro por ele com uma reflexão maravilhosa: uma relação saudável, um amor de verdade sobrevive a tudo, até à morte. Diz que tem saudades do marido todos os dias. Que procura ter uma vida ativa e significativa, que lhe custa estar sem ele, mas que a viagem que fizeram juntos valeu a pena. 
Acho que seria esta a minha conclusão também. Valeu a pena. 

Este livro é triste, evidentemente, porque além de ser escrito pela mão de alguém que morreu, é muito honesto, duro, despojado de artifícios. A linguagem, mesmo quando se fala de medicina, é emotiva, comovente.

Mas não é só um livro triste. É esperançoso e é redentor.
Dá vontade de viver. Ensina-nos a não morrer antes do tempo.
É isto que retenho dele, a vontade de viver uma vida bonita, cheia de amor e emoção.
Só assim valerá a pena.

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Seis da tarde


Todos os dias, mas todos os dias mesmo por volta das seis horas ouço os meus vizinhos do lado a chegarem com a filha, que às vezes vem a contar o que fez na escola durante o dia, às vezes a chorar, às vezes a berrar, mas todos os dias por volta das seis os ouço a abrir a porta.
Podia acertar o relógio pela sua chegada.
E fico a pensar como será viver uma vida com horários, com ritmos, com rotinas.
Como será entrar em casa e não ter trabalho para fazer - ou que pode ser feito.
Como será chegar à sexta-feira - às seis da tarde - e saber que durante dois dias inteirinhos e mais uma noite a vida é só nossa. Mesmo que os miúdos chorem, mesmo que façam birra, mesmo que o tempo esteja chato ou o dinheiro curto e não dê para sair.
Como será estar sentado no sofá e não pensar que se podia estar a adiantar o trabalho? Ou a correr atrás do prazo que está a passar?

Como será ter a clareza suficiente e a paz de espírito, a segurança, para estabelecer um horário para trabalhar e outro para descansar? 


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