sábado

São e pronto.

Extraños





Isto de ter amigos é uma coisa complicada. Mas não devia ser. 
Amigos são aquelas pessoas que se escolhe ou que nos caem ao colo e se transfromam numa outra família. Amigos são - deviam ser - aquelas pessoas com quem não temos filtro, com quem se pode falar de tudo, com quem não é preciso estar a medir palavras. Diz-se e pronto. Ouve-se e pronto. Os amigos não precisam de andar sempre colados uns aos outros, mas sabem que estamos lá, que estamos aqui. Estamos onde for preciso. Acompanhamos os momentos bons e os menos bons e esperamos a mesma coisa do outro lado. Somos amigos quando precisam de nós porque estão no fundo e quando já não precisam tanto porque vieram à tona. Os amigos (os de verdade) não são para as ocasiões. São e pronto.
Também acho que a amizade tem prazo de validade. Os laços de amizade são mais ou menos profundos consoante as circunstâncias e podem fortalecer-se ou desvanecer-se de acordo com a natureza das pessoas. Aceito-o com naturalidade e eu própria vou renovando o estatuto de «amiga» que mantenho com os outros. Não tenho lugares contados para preencher com amigos, por fazer novos não preciso de me desfazer dos antigos. Na verdade, se forem realmente amigos vão passando para um canto especial do coração, que tem sempre espaço para mais um. Para mim, as pessoas não são descartáveis nem facilmente substituíveis. Mas esta palavra, «amigo», tem gradações, não é igual para toda a gente. Porque somos todos diferentes, porque as nossas vidas e princípios são diferentes e encaramos os mesmos assuntos de formas distintas. E tudo bem. Ninguém tem de ser igual a ninguém.
O que me custa é ter de medir palavras, ter de escolher o que posso e não posso dizer, ter de continuar a classificar de amizade uma coisa que já não o é. Custa-me muito, mesmo muito, dar sem receber - porque se há coisa que a amizade não é é unilateral; isso é outra coisa, tem outro nome, outras regras. Custa-me a forma como algumas pessoas olham para as outras como se fossem bens descartáveis, que usam até à exaustão enquanto precisam e que relegam para um cantinho quando já não precisam tanto. 
Porque quando isto acontece percebe-se que afinal não era assim uma amizade tão grande, tão verdadeira, tão importante. 
Se fosse não deixava de ser.

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