quinta-feira

Seis da tarde


Todos os dias, mas todos os dias mesmo por volta das seis horas ouço os meus vizinhos do lado a chegarem com a filha, que às vezes vem a contar o que fez na escola durante o dia, às vezes a chorar, às vezes a berrar, mas todos os dias por volta das seis os ouço a abrir a porta.
Podia acertar o relógio pela sua chegada.
E fico a pensar como será viver uma vida com horários, com ritmos, com rotinas.
Como será entrar em casa e não ter trabalho para fazer - ou que pode ser feito.
Como será chegar à sexta-feira - às seis da tarde - e saber que durante dois dias inteirinhos e mais uma noite a vida é só nossa. Mesmo que os miúdos chorem, mesmo que façam birra, mesmo que o tempo esteja chato ou o dinheiro curto e não dê para sair.
Como será estar sentado no sofá e não pensar que se podia estar a adiantar o trabalho? Ou a correr atrás do prazo que está a passar?

Como será ter a clareza suficiente e a paz de espírito, a segurança, para estabelecer um horário para trabalhar e outro para descansar? 


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3 comentários:

Mariana disse...

Há sempre refeições para adiantar, os recibos para conferir no e-fatura, a compra de um presente de aniversário, uma consulta para marcar... Em querendo, há sempre motivos para qualquer pessoa, independentemente do tipo de trabalho que tenha, não aproveitar o momento para simplesmente descansar.

Gosto muito de ver-te de volta :)

Ana. disse...

Tens razão, Mariana, sei que sim.
Eu é que tenho tendência para (quando estou mesmo muito cansada) desdenhar da vida maravilhosa que tenho e que foi exatamente a que sonhei!
É a fase Calimero no seu melhor!
:)

Amigo Imaginário disse...

Percebo tão bem o queres dizer! Uma pessoa até parece que se sente culpada se dorme mais uma hora de manhã, se se distrai a ver merdas na Net, se lê mais uma páginas em vez de aproveitar para descansar a vista... Vivemos em permanente competição connosco próprios. Mas, depois, há o reverso da medalha: aquele nervoso miudinho que se sente quando entregas uma tradução e não tens outra na calha; o vazio assustador que se instala quando "não tens nada para fazer". É uma vida um bocado esquizóide! :p