terça-feira

Sensibilidade e cansaço

kitty:

Não sei se é do cansaço ou dos tempos instáveis em que vivemos mas parece que ando sempre a engolir as lágrimas. Comovo-me com tudo.
Parece que toda a gente anda aflita com alguma coisa. Com pouco trabalho, com muito trabalho; com alguma doença; com falta de dinheiro; com falta de amor; com falta de segurança. 
Achava que estava a ficar cada vez mais cínica, andei aí uns tempos em que me sentia a endurecer, mas ultimamente tudo me deixa engasgada. As crianças que precisam de medula; os animais abandonados que precisam de dono; as pessoas que morrem nesta guerra merdosa entre povos e religiões que deviam coexistir pacificamente; o Totti que deixou de jogar e chorou como uma criança. Uma música, um abraço, um grito velado por socorro e atenção. Tudo, literalmente tudo me dá vontade de chorar. Até escrever isto.
Ando há semanas (on and off) às voltas com um trabalho que me está a matar aos bocadinhos, que instiga em mim instintos assassinos e - evidentemente - me dá uma vontade imensa de chorar. Estou tão cansada; estou farta; não durmo bem; não tenho apetite nenhum. Sento-me para trabalhar cheia de coragem e ao fim de duas horas pareço um balão furado, sem força nem ar.
O meu lema nestes casos é «Uma frase de cada vez», porque realmente não posso fazer mais do que isso, mas todas as frases parecem arrancadas a ferros. 
Quero tanto despachar-me disto, esquecer-me deste texto, avançar com as coisas maravilhosas que tenho para fazer a seguir, mas o meu progresso é tão lento, tão esforçado, tão emocionalmente cansativo, que chego ao fim do dia com a sensação de que não fiz nada de jeito. Digo muitas vezes que estou a fazer o melhor que posso, mas desta vez o meu melhor não chega.
E depois, claro, vejo uma fotografia de um gatinho com ar desolado e fico toda comovida porque o gato é fofinho e eu preciso mesmo de mais gatos cá para casa, sobretudo de gatos bebés.
Leio as notícias e fico preocupada com os escalões do IRS. Vejo as atualiações do Twitter e temo que um dia destes rebentem por aí bombas nucleares a torto e a direito porque há um Neandertal determinado a dar cabo do mundo. Vejo o Justin Bieber (o Justin Bieber, senhores!) a dizer que o que vai salvar o mundo é o amor e fico para morrer de emoção. Estremeço porque ninguém está preocupado com o que se passa no Sudão do Sul, na Nigéria ou na Somália; é longe, está fora das rotas turísticas e de qualquer maneira eles são muitos. 
Entretanto o Montepio está a dar o berro e continuo a pagar-lhes cotas de associada.

Tudo me dá vontade de chorar.
E agora tenho de voltar ao trabalho, depois de secar os olhos que já nem estou a ver bem.


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