sábado

O Labirinto dos Espíritos

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Desde miúda que tenho livros. 
Um dos primeiros livros de que me lembro era um livro da selva, daqueles desdobráveis, com patilhas que se puxavam para os animais abrirem a boca ou os olhos, com ramos de árvores que abriam quando virávamos a página, com muitas cores e um mundo de aventuras. Depois tive um do Peter Pan que era do mesmo estilo e que me lembro de folhear até as páginas ficarem quebradas.

Entretanto, comecei a ler livros «a sério», sem bonecos, com 12 anos. Faço anos em pleno verão e a minha tia deu-me dois livros de uma série de mistério e aventura (para crianças, evidentemente, que não comecei logo pela Agatha Christie!) e julgo que ela deve ter achado que aqueles dois livros me davam para o resto do verão. Acho que me duraram duas semanas!
Lembro-me muito bem desse verão porque foi quando me apercebi que ler livros é viajar sem sair do sítio, viver vidas que não são nossas e sonhar quando se está acordado. 

Nos anos seguintes, devorei todos os livros das minhas vizinhas - até aquelas xaropadas da Júlia, da Bianca e da Cassandra, ou seja, todos os romances de cordel a que consegui deitar a unha - da biblioteca itinerante aos empréstimos de amigos, li tudo o que me aparecia à frente. Os da Enid Blyton? Não me escapou um!

Comecei a ler e nunca mais parei.
Agora sim, Agatha Christie, Konsalik, Camilo Castelo Branco, Arthur Conan Doyle, Morris West, lia tudo o que encontrava, até os contos do Reader's Digest! 
Tentei ler Saramago, mas não consegui. Tentei Garcia Marques, mas não gostei (um dia destes volto a tentar, porque acredito mesmo que nem sempre estamos preparados para os livros que encontramos). Li O Nome da Rosa, de Humberto Eco, e senti que me ia dar um abafo de emoção. Que livro perfeito! 
Lia também tudo o que havia na lista de livros de Português, na escola, e li o Amor de Perdição duas vezes, com uma semana de intervalo tal foi a paixão assolapada que aquele livro me fez sentir! 

Às vezes tinha vergonha de dizer que o meu passatempo favorito era ler, que passava os fins de semana inteirinhos agarrada aos livros, que a minha mãe ralhava comigo porque não fazia literalmente mais nada a não ser ler! Haviam de pensar que era uma mosca morta que não sabia fazer mais nada! (Uma pessoa quando é novinha preocupa-se com o que os outros pensam de nós, o que querem?!) Saber, sabia, só tinha era coisas mais importantes para fazer! Ler.

Depois vim para a universidade e comecei a ler Tolkien, e coisas de gente crescida (mas não só, porque li toda a saga do Harry Potter com tanto fervor que a partir do segundo volume comecei a ler em inglês, porque não conseguia esperar pela tradução!).

Daí a Ken Follett, Stieg Larsson, Haruki Murakami, Jonathan Franzen, Camilla Lackberg, John Green e muitos, muitos outros foi um tirinho. 

Como também trabalho com literatura (o que mais poderia ser na vida senão tradutora literária?!) de vez em quando descubro pérolas que tenho a imensa honra de tirar da concha, para as oferecer aos leitores portugueses! Habituei-me desde muito cedo a ler em inglês, mas também trabalho em castelhano e já li muitos livros no original espanhol.

Depois, corria o ano do Senhor de 2012, conheci o meu amor maior, o meu literary crush! 
Carlos Ruiz Zafón.
Seguidinho de perto pelo Murakami e pelo Follett, é o meu autor favorito.

Li A Sombra do Vento num misto de espanto e emoção, com alguma incredulidade, porque não sabia que era possível escrever um livro tão perfeito. E a tradução! Acabei de o ler quando estava em Palma de Maiorca e fiquei feita parola na areia, a choramingar porque aquele livro era perfeito e estava imaculadamente traduzido! Disse ao Nuno que o meu sonho era saber traduzir assim! E ainda é.
Por isso, quando saíram os dois livros seguintes, voltei a comprar a edição portuguesa e fiz o mesmo hoje, ao comprar o último volume da tetralogia de O Cemitério dos Livros Esquecidos. 

Ainda não o li (francamente, não sei como é que me aguentei a tarde toda) porque estou a traduzir um livro maravilhoso que quero entregar no início da semana e que merece todo o meu tempo, atenção e dedicação. Não quero ler duas páginas de Zafón e depois estar a pensar nele quando estiver a traduzir! Porque já sei que é isso que vai acontecer.
Quando li A Queda dos Gigantes, do Ken Follett, tive de «meter uns dias de férias» porque não conseguia pensar em mais nada! E o meu trabalho não merece isso, porque, lá está, o meu trabalho são os livros! Mais vale parar dois ou três dias, ler e depois seguir com a vida! (São as vantagens de se ser freelance!) 

Por enquanto, O Labirinto dos Espíritos vai funcionar como a minha cenoura, a meta que quero atingir. Quando puder finalmente sentar-me a ler, significa que já acabei este livro em que estou a trabalhar, que me tem aquecido o coração, que me tem feito rir e chorar como nunca e que não sendo um Zafón é uma história linda de morrer, cheia de emoção e ternura.

Vamos lá então a despachar! 
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1 comentário:

Amigo Imaginário disse...

Não sei fazer corações pequeninos aqui, mas pronto... tu percebes!