quinta-feira

A minha rua é muito tranquila, ouvimos os passarinhos, o sino da igreja e as crianças a brincar, mas...



Há umas semanas, naqueles dias de março que nos enganaram bem enganados, fazendo-nos crer que vinha aí a primavera, andava eu a pintar o quarto, portanto de janela escancarada, quando comecei a ouvir gritos na rua.
Moro num primeiro andar alto, e ouço muito bem os movimentos da rua, das pessoas que às vezes por ali conversam, mas aqueles gritos eram altíssimos, alterados. Ouvia duas vozes de mulheres, sendo que uma gritava mais do que outra, que quase só gemia. 
Claro que fui ver, tanto por curiosidade como por preocupação; vai que alguém precisava de ajuda?
O que vi e ouvi seria engraçado se não fosse tão triste, tão cru...

Estava uma senhora com pouco mais de 40 anos que mora aqui no prédio ao lado, cujas janelas dão para as do meu escritório, a dar uma valente carga de porrada a outra senhora mais ou menos da mesma idade. Vi bofetadas, pontapés, puxões de cabelo e ouvi todos os insultos possíveis. 
Porque a senhora que entretanto caiu no chão, a que estava a levar porrada, tinha andado atrás do marido da outra - dizia a minha vizinha... 
A outra defendia-se como podia, mas não lhe bateu e disse que quem andava atrás era o marido dela, que lhe enviava fotografias e mensagens pelo Facebook. 
Mais porrada, mais insultos!
Nisto aparece o marido a correr. Agarrou a mulher e a outra desgraçada desapareceu em menos de um fósforo, mas não sem antes ouvir a sentença da mulher traída: Vou à bomba da gasolina e toda a gente lá vai ficar a saber a grande puta que tu és... 

Nesta altura, já estava meia vizinhança à janela e uns rapazes de uma carrinha de mudanças que tinha parado aqui na rua decidiram agir - porque a única coisa que viram foi uma mulher aos gritos enquanto um homem a agarrava. Um deles pegou num ferro e ofereceu porrada ao marido, chamou-lhe todos os nomes também, que não se bate em mulheres e se queria bater em alguém que fosse ter com ele. Tudo muito bem temperado com as vírgulas que o pessoal usa aqui no norte! 

A coisa acalmou, o marido foi-se embora - provavelmente atrás da desgraçada da outra que ficou sem meia dúzia de extensões no cabelo - e a mulher sentou-se no passeio a chorar e a pedir para chamarmos a polícia, que tinha sido agredida. 
Se eu não tivesse visto a situação do início, talvez tivesse chamado mesmo a polícia. Mas assim, confesso que não o fiz. 
Porque quem agrediu primeiro foi ela. 
Porque se o marido dela anda com outra pessoa quem merece um valente enxerto de porrada é o marido - que é quem lhe deve, senão amor, pelo menos respeito e discrição, 

Só sei que não tem estado ninguém em casa, as persianas estão sempre fechadas, as luzes apagadas. 
Mais uma história que um dia deve ter sido de amor, que chegou assim a um triste fim.


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1 comentário:

Anita disse...

Uma novella da visa real...