segunda-feira

Glorificar o que não está bem


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Como quase todas as mulheres que conheço, há coisas no meu corpo que gostaria que fossem diferentes. Maiores, mais pequenas, mais ou menos pronunciadas, enfim, se pudesse refazer-me, mudava muita coisa. Tenho em relação a isto sentimentos bastante contraditórios, porque se por um lado acredito que devemos aceitar como somos e abraçar a nossa individualidade, por outro lado não tenho nada contra em tentarmos ser cada vez melhores versões de nós mesmas, mais conscientes, mais corretas, mais saudáveis e mais bonitas, para quem a beleza importar - e para mim importa.
Procuro comer bem, alimentos com tanta qualidade quanta o meu orçamento me permite comprar, faço um esforço incomensurável para não comer doces a toda a hora, faço desporto porque sei que me faz bem à cabeça, mas também ao corpo. Procuro vestir-me bem - seguindo a mesma lógica orçamental! - com gosto e com peças que me favoreçam e procuro cada vez mais acolher a ideia de que não somos todas feitas a partir de um único molde e que não devíamos ser avaliadas como tal.
Mas uma coisa é aceitar aquilo que somos e aprender a gostar de nós assim, outra coisa é glorificar aspetos que não são assim tão bonitos.
Anda para aí um movimento - ainda discreto - em que as mulheres são encorajadas a fotografar as estrias e as cicatrizes das cesarianas, assim como os seios descaídos porque diz que são marcas lindas da história da mulher... Que são testemunhos do que é "ser mulher"...

Eu peço desculpa pela insensibilidade, mas estrias, celulite e seios descaídos podem de facto contar uma história bonita, podem remeter para um dos aspetos mais fascinantes da vida de uma mulher, mas não são marcas bonitas no corpo de ninguém.
Todas temos direito a sentir-nos bonitas, plenas, realizadas e em paz com o corpo que temos. É talvez das coisas que mais escapa à indústria cosmética e da moda: todas as mulheres têm o direito de estar bem com aquilo que são, viver bem no corpo que têm.
Mas ainda estou para conhecer quem goste de ter estrias nas coxas, na barriga ou nas costas... ou cicatrizes e peles descaídas. Não conheço ninguém que, dada a oportunidade, não trocasse estes pequenos sinais do tempo e das circunstâncias por uma pele lisinha e seios empertigados.

Como disse, acho que todas devíamos amar o corpo que temos, até porque não vamos ter mais nenhum, mas amar o corpo passa por cuidar dele, por ser mais saudável, por fazer mais por nós.
Eu jamais vou dizer que gosto da minha barriga ou que adoro os papos que tenho nos olhos porque não gosto: detesto-os e dentro do razoável faria tudo para me livrar deles.
Aceito estas características como fazendo parte de mim, mas não vou fazer de conta que as amo e dizer: Muito bem, então daqui para a frente vamos lá tentar convencer o pessoal que bonito, bonito, é ter um pneu na barriga e papos nos olhos... Não. Vou continuar a tentar comer melhor, a dormir melhor e a fazer desporto; vou continuar a cuidar de mim o melhor que souber e puder.
Mas tentar "glamourizar" o que não está bem?
Não me parece...


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1 comentário:

gralha disse...

É uma linha mesmo muito fininha, a que separa a aceitação da glorificação. Concordo com tudo o que dizes e também há coisas em mim que gostava que fossem diferentes. Mas até gosto delas, olha. São parte de mim. Agora andar para aí a lançar fogos de artifício por causa disso parece-me um bocadinho falso.