quarta-feira

E se formos suficientes?




Não sei se foi sempre assim, mas parece que vivemos numa era em que todos queremos ser perfeitos. Principalmente as mulheres.
Instigadas talvez pela publicidade, que nos pressiona para que sejamos todas iguais, com medidas e pesos "aceitáveis", pele lisa e lustrosa e com corpos photoshopados em tempo real, andamos todas numa perseguição absurda para caber na imagem que insistem em enfiar-nos pelos olhos adentro.
Instigadas pelas exigências da igualdade entre os sexos no que diz respeito ao mundo do trabalho, andamos todas a tentar fazer mais para termos o mesmo reconhecimento. Ou nem isso.
E para quem tem filhos as coisas são ainda mais complicadas. Presume-se que uma mulher consegue fazer tudo, ser bem sucedida em tudo, ter tempo, disponibilidade e vontade para tudo.
Caramba!
E se aquilo que conseguimos ir fazendo for de facto o melhor que podemos fazer? E se não chegar para tudo for realmente o nosso melhor?
E se o corpo que temos, os quilos que temos a mais ou a menos, as rugas e borbulhas e estrias que o marcam forem como realmente somos? Como vamos ser? Mesmo com todos os cuidados - que sou uma forte apologista de cuidados com a alimentação, com o exercício físico e com a beleza, não só pela beleza, mas principalmente pelo nosso bem-estar, pela saúde - e se mesmo com todos esses cuidados sensatos, a nossa pele não for tão lustrosa como a pele das meninas dos anúncios, a nossa barriga não for tão lisa e as coxas não forem tão esguias e tonificadas? Somos menos por isso?

E agora personalizando a coisa: Mesmo com todo o esforço que faço para produzir não sei quantas mil palavras por dia, quando chego ao fim do dia e só consegui fazer metade, isso faz de mim um fracasso? Faz de mim uma profissional menos boa?
Ou será este o meu melhor, apesar de não ser o que tinha idealizado? Apesar de não ser o que queria, mas sendo o que posso fazer sem me matar?

Quando vamos perceber que se calhar já chegámos lá?
Que o nosso melhor é real, adaptado a cada uma de nós, à nossa força, à nossa vida e não é uma noção generalista incentivada pelos padrões pré definidos que surgem em revistas ideologicamente formatadas e digitalmente tratadas?

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3 comentários:

Naná disse...

Admitir que temos limites ou falhas é meio caminho andado para nos sentirmos melhor com quem somos e com o que temos

gralha disse...

O pior é que muitas vezes a maior exigência vem de dentro. Por exemplo, escreveste isso sobre ti: achas que vais conseguir dar-te mais desconto a partir de agora?
Ainda não inventaram os comprimidos de despressurização, infelizmente.

Ana. disse...

Não, claro que não, gralha! E o problema é principalmente esse, porque o que precisa de ser feito é a nível pessoal. Mas no meu caso, quanto mais confiar nas minhas capacidades, quanto maior for a noção dos meus limites, como diz a Naná e bem, menor será a desilusão quando não alcanço os objetivos absurdos que me imponho.
É um longo processo, mas também acho que não estou tão atrasada e tão em baixo na escada como por vezes penso!