segunda-feira

Back to Life, Back to Reality...



Não, não é o título daquela música pirosa dos anos 90!
As férias acabaram ontem. E nem sei bem por onde começar.

Durante duas semanas, deixámos o trabalho para trás, repusemos energias, curámos as dores e esquecemos a vida real. Na última semana, estivémos mergulhados na mais abençoada ignorância (nisso e numa água quentinha, quentinha da qual já tenho saudades!) e chegaram-nos apenas breves migalhas do que se passava no país.
Agora chegados e de mangas arregaçadas para recomeçar, constato que as pessoas estão fartas, tristes, desmoralizadas e a depositarem esperança em manifestações que todos esperamos que sirvam para alguma coisa.
Não sei o suficiente sobre política externa para mandar bitaites sobre a melhor forma de combater o défice e de pagar dívidas, mas sei o suficiente para perceber que não é a empobrecer as pessoas que lá vamos.
No mesmo dia em que fui comprar o mealheiro para as férias do ano que vem (??), a minha melhor amiga disse-me que no dia do anúncio das novas medidas de austeridade teve vontade de se fechar em casa, deitar-se na cama, adormecer e só acordar daqui a dez anos.
Uma senhora que estava no cabeleireiro onde fui cortar as pontas disse que teve de sair de casa e passar algum tempo com as cabeleireiras (suas amigas de infância) porque já não aguenta estar em casa sem fazer nada. Tem 40 anos, perdeu o emprego em Março, um mês depois de o marido  - que esteve desempregado um ano e meio - ter conseguido arranjar emprego. Diz que nem tiveram oportunidade de respirar de alívio. Começou a chorar quando lhe desejei boa sorte e lhe disse que tudo havia de se resolver.

Não quero estar triste, não quero pensar no dinheiro que me vão roubar, não quero pensar que o mealheiro que fui comprar hoje (aquelas latas baratas do chinês) pode ficar cheio de ar.
Quero trabalhar com calma e cabeça, quero respeitar os meus deveres de cidadã, quero pagar o que tenho de pagar e receber o que tenho de receber.
Não quero mais ser roubada: entrego quase um quarto do meu trabalho a um estado que não só não me dá garantias nenhumas de futuro como se prepara para me exigir mais "um esforço". A sensação de que me estão a assaltar vilmente é impossível de afastar.

O que podemos fazer? Que força temos? Onde está a solução? A sério O QUE PODEMOS FAZER?
Estou cansada de olhar para o lado e ver gente a lutar por sobreviver. Como vi numa fotografia da manifestação de sábado, nós não somos plantas, somos pessoas. Não nos basta sobreviver, temos o direito de viver. E com dignidade.

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3 comentários:

gralha disse...

O mais difícil já aconteceu: convencer as pessoas que não estamos todos virados para o próprio umbigo mas, sim, somos um povo consciente e exigente da sua democracia. O resto virá por acréscimo.

Naná disse...

Acho que a manifestação foi exactamente o reflexo do sentimento de injustiça perante um roubo descarado!
Como ouvi no Eixo do Mal, estas medidas foram de uma violência a toda a prova e sinceramente foi assim que me senti: como se me tivessem dado uma sova valente para me roubar os euros que luto por ganhar. E mais, pelos euros que tento amealhar para assegurar um futuro ao meu pequeno filho.

Ana. disse...

Eu acredito muito na mobilização e na força do povo, mas - sejamos realistas - tenho medo que o governo faça ouvidos de mercador... Se isso acontecer, as manifs vão suceder-se, o descontentamento vai adensar-se e só espero que tenhamos força e cabeça para fazer as coisas como devem ser feitas.