quinta-feira

Devias Saber Melhor


Imagem tirada da Net



Eu adoro ler.
E nem sequer posso dizer que seja por defeito profissional, porque uma das recordações mais vívidas que tenho daqueles deliciosos Verões de infância e adolescência (os tais que duravam efectivamente três meses!) é a de ouvir a minha mãe a ralhar comigo porque não era possível que eu conseguisse passar o dia todo a ler, sem fazer mais nada, dia após dia, semana após semana. (A minha mãe é uma santa, mas nunca teve grande jeito para a pedagogia!)
Assim, não posso dizer que leio devido à minha profissão, mas antes que tenho esta profissão porque sempre li muito.

Gosto de ler originais.
Sei que contra mim falo, mas se puder ler um Ken Follet e um Paul Auster em inglês ou um García Marquez em castelhano, não prefiro uma tradução (que me desculpem os colegas tradutores!)

Gosto de ser eu a pesar as palavras, a construir as imagens a escolher o significado que mais me agrada - sim, porque as palavras não querem dizer o mesmo para toda a gente - e sinceramente, não há nada que me enerve mais que estar a ler um livro em português e saber exactamente como determinada frase ou expressão estava escrita na língua original.

Sei bem (de mais) que há problemas de tradução que são quase inultrapassáveis e que é preciso encontrar soluções, às vezes sabe-se lá onde; mas isso não explica nem desculpabiliza o decalque que por vezes se faz de uma língua para a outra. Para mim explica-se com a motivação, o profissionalismo e a preocupação do tradutor em encontrar soluções verdadeiras e não "desenrascansos" mais-ou-menos-porque-já-estou-farto-disto-e-não-arranjo-melhor.

Durante algum tempo, em que trabalhei a um ritmo absurdo, achei que tinha perdido o gosto pela leitura descontraída, lúdica. Não perdi. Tenho lido coisas boas com verdadeiro prazer.
Mas fico zangada, quando numa primeira página me deparo com um "Devias saber melhor", ou seja: You should know better.

Aposto o meu braço direito que era o que estava no original.


*

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9 comentários:

Melissinha disse...

Sabes que eu acho que é uma questão de tempo até o "devias saber melhor" nos entre de vez pela casa adentro? Não assim, tão tortinho, mas algo parecido.

Já agora, como costumas traduzir? Eu engancho sempre. Às vezes como "consegues melhor do que isso", se na 2a pessoa, ou "já devia saber", "devia ter mais juízo", na primeira, mas nada me satisfaz inteiramente.

Ana. disse...

Acho que fica mais natural se utilizarmos as expressões que já temos em pt, Melissinha.
Já devias saber que...
Já devias estar preparado para...
Sendo que, para mim, o que liga uma expressão à outra é o "já".
O que não gosto de ver é a tradução literal, palavra por palavra, sem ter em conta as milhentas expressões idiomáticas que existem.
É verdade que às vezes não encontramos um correspondente que nos satisfaça, mas recuso-me a transpor meramente...

Precis Almana disse...

Embirro com o "eventualmente" no final de frases. E vê-se tanto, tanto! Caramba, é básico. Como é que deixam passar essa?
Eu defendo as traduções - ou seja, se me poupam trabalho eu agradeço - mas já senti em alguns livros que muita coisa não batia certo. A última vez nem foi num inglês. Mas não digo para não ferir susceptibilidades :-)

Ana. disse...

Precis, acertaste num dos meus ódios de estimação!
Na maior parte das vezes, o eventualmente aparece como tradução de "eventually" que é afinal, no final de contas e por aí fora. Ora em pt, eventualmente indica uma possibilidade, não uma finalidade!
Fico possuída!

;)

Melissinha disse...

Mas acho que nem sempre quer dizer o "já devias saber". Há o "tens capacidade para ires mais longe no raciocínio, estás a ser simplista". É aí que me enrolo.

Ana. disse...

Pois, Mel, é daquelas coisas que às vezes tem de ficar implícita no resto do texto...
Continuo uma defensora acérrima daquela maravilhosa figura de estilo que dá pelo nome de paráfrase!
;)

Precis Almana disse...

E ontem li uma linda na série The rafters/Lotação esgotada - canal sony entertainment, sábados - que fiz questão de vir cá dizer: "sente-se bem!" (para it feels good!).
Não sou tradutora e confio nas traduções, normalmente, mas há coisas que não se toleram e que acabam por pôr tudo em causa. Será que (alguns) tradutores quando têm pressa põem amigos a fazer por eles, enquanto jantam e etc.? :-S

Banita disse...

@ Ana, Preciso que divulgues uma campanha: Neste Natal, Doe a quem Doer!
Está tudo no banitos. Obrigada e beijinhos!

Ana. disse...

Precis, quem põe amigos a fazer (mal) o seu trabalho, não pode entrar na categoria de tradutores que se esforçam doze horas por dia para fazer as coisas bem feitas.
Nesta profissão há de tudo, como na farmácia!!
;)