quinta-feira






Há qualquer coisa excitante e ao mesmo tempo sombria no momento exacto em que alguma coisa na nossa vida muda.
Quando um ciclo se completa e outro começa, sentimos que nada será como dantes, mas ainda não sabemos se será melhor ou não.
Lembro-me que quando acabei o curso, no primeiro dia depois da defesa do estágio, fiquei em casa todo o dia, meio apardalada e dei por mim a questionar-me: E agora?
Não tinha mais nada para fazer, mais nada para estudar, mas trabalhos para apresentar, mais aulas para assistir e a sensação que me enchia o peito era de um grande vazio...
Senti que estava à beira de qualquer coisa importante, que tinha completado um ciclo e que um mundo novo se abria perante mim.

Desde esse dia até hoje, a minha vida tem sido uma sucessão de projectos, uns mais fáceis e agradáveis, outros nem por isso. Mas é assim mesmo.
Não me lembro de uma sensação mais libertadora que aquela que experimento quando traduzo a última frase de um livro.
É um verdadeiro misto de alívio por ter acabado mais um e de angústia ao pensar como será o próximo.
Mas é um momento indiscritível.
Às vezes tenho sorte e aparecem-me livros muito bons. Bem escritos, com ritmo, com histórias interessantes, diferentes. E o trabalho parece que voa. Não sinto a pressão dos prazos, nem as páginas a passar.
Mas também há aqueles que não me dizem nada, que não têm assim uma cadência tão fluida ou uma história tão interessante. Com estes, as páginas arrastam-se, cada parágrafo é uma luta, escrevo algumas frases três ou quatro vezes até ficar satisfeita com o resultado. Os prazos são cada vez mais curtos e a minha disposição ao acordar de manhã para me sentar a escrever é: Não... hoje não me apetece trabalhar. Não neste livro...
Invariavelmente, quando os releio, acabo por achar que ficou bastante bem, que afinal a história até é interessante e que a linguagem não é assim tão sofrível. Mas enquanto o trabalho dura... é difícil conseguir ter uma boa sensação.
Neste momento, por uma questão de prazos, larguei um livro muito bom que estava a correr lindamente e regressei a outro, que venho deixando para trás por ser dos tais que não me dizem nada.
E todos os dias questiono a minha resistência emocional ao preparar-me para mais dez horas sentada, imersa neste mundo absurdo e irreal.

O fim do dia é o momento mais ansiado. É quando penso: "Por hoje já está. Fechei o ciclo."

Mas amanhã há mais.

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