quinta-feira

A Perfeição Não Existe...


Eu tenho as melhores condições de trabalho do mundo.
Trabalho em casa, confortavelmente, tenho total liberdade de horários e se quiser até posso trabalhar de pijama!
Não é frequente!!

Às vezes tenho mais tempo para determinado livro, outras vezes menos.
Os prazos são normalmente fixados por mim, de acordo com o que tenho em mãos nos meses mais próximos.
Mas há ocasiões em que é preciso dar um bocadinho mais ao dedo, porque reservei pouco tempo para este ou aquele trabalho, porque avaliei mal o livro e afinal vou precisar de mais dias do que os que lhe tinha destinado ou então porque a editora precisa dele em determinada data e não há muita margem de manobra.

Trabalho bem sobre pressão.
Quando preciso mesmo, trabalho à velocidade da luz. Fico super concentrada, mais desperta, raciocino melhor, encontro soluções mais facilmente e faço quantidades absurdas de páginas por dia!
Mas escrevo muito mal à pressa. Não dou erros ortográficos, mas troco imensas teclas (tenho até trocas crónicas), esqueço-me de "s" nos plurais, coloco vírgulas a torto e a direito... enfim, um desastre.
É por isso que preciso sempre de dois ou três dias para uma última leitura que apanhe estas gralhas todas.
Quando não tenho tempo para esta leitura... fico doente.
Porque sei que há coisas que escapam quando se escreve à pressa e sei que se a tradução não for revista, da primeira vez que abrir o livro, normalmente no meio de uma Fnac, os olhos caem imediatamente em cima de um "s" a mais ou a menos, um espaçamento duplo, um pá em vez de pé (falha muito comum, que o corrector obviamente não assinala) ou outra gralha qualquer.

E nessa altura, o sentimento de orgulho por ter um livro que me passou pelas mãos já publicado, todo lindinho, de capa lustrosa e sei lá mais o quê, é substituído por uma tristeza imensa e uma quase vergonha por ter deixado escapar aquelas gralhas e por não ter entretanto existido uma revisão decente que desse com elas.

Quase há seis anos atrás, quando vi a revisão do primeiro livro que traduzi, fiquei indignadíssima! Tinha tantas correcções, tantas substituições a vermelho!
Precisei de um tempo para entender que o livro não era meu, que uma publicação não é somente da responsabilidade do tradutor. É um trabalho conjunto entre tradutor, revisor, paginador, coordenador editorial e sei lá mais quanta gente que se mata a trabalhar para as coisas saírem como deve ser.

E quando não saem, principalmente devido a questões comerciais, fico de cabeça perdida e demoro muito tempo a "engolir o sapo" e a desilusão.

Tanto que só agora, um ano depois, consigo falar disto.


*
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7 comentários:

Ana C. disse...

Eu sei distinguir quando a culpa é do tradutor, ou do revisor fica descansada, do paginador nunca me tinha ocorrido, mas agora já sei ;)
Agora andares a bolir como uma louca para o livro não sair, isso sim deve doer.
Já agora responde-me como tradutora:
Ando a ler um livro muito giro (de uma escritora americana), mas onde encontro diálogo sim, diálogo sim a palavra carago.
Para mim é óbvio que a tradutora é nortenha, ou será que é desculpável?

Ana. disse...

Anita,
Na minha modesta opinião (e sendo ribatejana a viver no norte) acho que todos os regionalismos devem ser evitados. Embora não sejam incorrecções, a língua tem uma forma padrão. É essa forma que gosto de utilizar e que acho mais correcta; primeiro porque é reconhecida em termos globais e depois porque na maior parte das ocasiões acho que fica mais elegante respeitar a norma.
Ainda agora ao almoço falava disto com amigas e se bem que é verdade que os regionalismos não se podem deixar morrer, gosto de os deixar para os autores nacionais (que são um veículo válido de transmissão de cultura portuguesa); nas traduções prefiro não os incluir.

E carago nunca, carago!!

Já agora, por curiosidade, qual é o livro e quem traduziu?

;)

Melissinha disse...

Que belíssimo post, Ana. Obrigada por ele.
Também me contorço toda quando vejo erros nas minhas legendas. Mas acontece, trabalhamos contra-relógio.

E não te esqueças: há quem seja pago para apanhar essas merdas (sei que não serve de grande consolo, porque ninguém pensa no revisor, só no coitado do tradutor).

E regionalismos não, p'lamordedeus.

Melissinha disse...

PS A não ser que queiras transmitir um regionalismo mesmo.

Ana. disse...

É bem verdade Mel.
Seja bom seja mau, é tudo imputado ao tradutor!
Mas o que se há-de fazer? A malta gosta disto!
;)

Melissinha disse...

sabes o que eu acho que se pensa por aí? Quando é bom é porque o autor é bom, e quando é mau é porque o tradutor não presta!

Narcolepsia disse...

és tradutor? era a minha profissão de sonho.. mas fiquei limitada na escolha do curso por causa da localização das universidades