quinta-feira

Não Digo Que Não

Imagem tirada da Net
"Maternidad" - Pablo Picasso


A primeira coisa a registar é a admiração que sinto pelas mulheres que, abnegadamente e às vezes sabe-se lá a que custos, decidem ter filhos.

Posto isto e a propósito deste texto, aproveito para dizer a quem possa interessar que, numa conversa onde, vamos supor, estão duas mães de jovens rebentos, não é minimamente interessante saber se as crianças já fizeram cócó naquele dia ou não, se a consistência, a cor ou o cheiro eram normais ou nem por isso!
É a verdadeira conversa de merda.
Não interessa a mais ninguém a não ser às mães em questão, que no auge da sua função primordial de propagadoras da espécie se esquecem de tudo o resto que faz parte da vida do comum dos mortais.

Tenho pena quando constato que mulheres que antes de serem mães falavam sobre cinema, música, literatura e sei lá mais o quê, mal se encontrem com os rebentos nos braços pareçam esquecer-se de tudo e passem a falar apenas de fraldas, marcas de leites e percentis!
Tinha uma colega de trabalho que contava o parto da filha como se da própria Odisseia se tratasse, com direito a pormenores verdadeiramente gráficos e portanto, horrorosos.
Ninguém precisa de saber quantos pontos levaram nas ditas cujas, nem por dentro nem por fora!
Ninguém precisa de saber que aumentaram três números de sutiã e que "as meninas" desceram dez centímetros em direcção aos joelhos!
And who cares sobre a vida sexual (ou a inexistência dela) depois do parto?

Eu sei que há mulheres que nasceram para a maternidade (que são muito boas naquilo que fazem e que teriam vidas indiscutivelmente mais pobres se não tivessem filhos) e acho isso fantástico, embora como já disse aqui não seja um assunto que me toca especialmente e não me inclua de todo no espectro de mulheres cujo sonho é serem mães. Mas custa-me ver que algumas pessoas encarem a maternidade como uma obrigação, como uma sina, como apenas mais uma etapa da ordem "natural" da vida.

Se há coisa que deve ser pensada e desejada é um filho. Porque um filho não se tem só enquanto é moda, só enquanto anda em carrinhos todos xpto... Um filho é para a vida. E a minha pergunta é:
Será justo para uma mulher anular-se, dedicar-se por completo aos filhos, esquecendo-se de si, das suas necessidades, dos seus prazeres, da sua pessoa?

Muitas das mães responder-me-ão que sim, que é justo, que vale a pena. Porque ter um filho é a maior bênção da vida de uma mulher, é o objectivo último do corpo feminino, é o amor mais lindo e puro que uma mulher pode sentir, and so on and so forth...

Não digo que não.
Digo apenas que deve haver mais coisas para além disso.
E que de facto, não somos todas iguais.
Seja por que motivos for.

*
*

9 comentários:

Ana C. disse...

A realidade é tão mais vasta do que a nossa pequena visão. Por isso é tão bom encontrarmos pessoas diferentes que nos lembrem disso mesmo todos os dias.
Ajuda a descentrar o mundo da nossa barriga ;)

Ana. disse...

Eu também olho muito para a minha barriga... mas por outros motivos!!

;)

Naná disse...

Eu sou dessas que teve um filho quando o desejou. Posso dizer que o meu relógio biológico começou a disparar e senti-me meia estúpida pelo desejo súbito de experimentar a maternidade.
Sempre ouvi aquela velha tirada do "tens filhos muito tarde, depois arrependes-te de não ter tido mais cedo!" Na altura achava aquilo uma perfeita parvoíce!
Mas agora que sou mãe confesso que o meu filho veio quando tinha que vir e quando eu entendi que estava capacitada psicologica, financeira e emocionalmente para isso. Mas lá que fico com aquele bichinho a roer-me de não ter tido essa capacidade antes, lá isso fico, porque a sensação de ser mãe é mesmo maravilhosa.
Mas compreendo perfeitamente quem entenda que não quer ter filhos ou os quer mais tarde do que os outros, porque tem outros objectivos. cada um sabe de si e não devemos julgar todos pela mesma bitola, porque este mundo seria uma seca se todos quiséssemos e fizéssemos o mesmo! Irrita-me é esses juizos de valor que se tecem acerca de quem não quer ter filhos, só porque toda a sociedade acha que é assim que deve ser!...
E também considero que ter um filho não é um fim de nada enquanto mulher, mas o começo de muitas outras coisas.
Uma das coisas que a maternidade me fez foi tornar-me mais serena e encarar a vida profissional de uma outra forma. Fez-me ver tanta coisa de outra perspectiva e eu hoje sinto-me uma mulher diferente, mas melhor do que era antes.

Princesa Tagarela disse...

...já falámos disto... muito...as duas...

...sou a prova viva de que se pode ser MÃE sem nunca deixar de ser MULHER... Aliás, tenho a certeza de que se assim não fosse, não teria filhos tão adorados, nem tão adoradores...

Beijooooosss

Ana. disse...

clap, clap, clap (som das palminhas para a Naná e para a Princesa!!)

;)

Banita disse...

Também já sabes o que eu penso acerca deste assunto e para quem me pergunta, define numa palavra o que é ser Mãe, eu respondo: sacrifício pessoal! Sim, sem mais nem quê, porque é inevitável que te anules um pouco e que quando vais às compras de roupa para ti acabes sempre por comprar para o filhote, mesmo que não fosses com essa intenção! É inevitável que te rendas às conversas de merda sobre cocós e afins quando os filhos são bebés porque ser Mãe tira-te todos os pudores que alguma vez tiveste. A parte boa é que depois passa! :D Voltas a ser quase tu própria! Claro que nunca mais vais ser a pessoa despreocupada e egoísta que eras antes mas, a maternidade torna-nos melhores. E mais cansadas e mais impacientes também! ;)
Beijinho

A Mamã! disse...

Apesar de ser uma recém-mamã, tenho e sempre tive uma posição muito forte em relação a este assunto... Chega quase a ser insultuoso pensar-se que todas as pessoas neste mundo têm de levar a vida que se julga ser "a normal", quando tantas e tantas pessoas vistas como "não normais" conseguem ser bem mais felizes do que as "normais"! E assim sendo, chegamos à simples conclusão que o mais importante que pode haver é a felicidade, seja em que forma for! E tenho dito!

A Mamã! disse...

Em jeito de comentário à questão da mudança de comportamentos quando se tem um filho, sempre acreditei que um filho não pode ser transformado no mundo dos pais. Não pode nem deve. É a minha mais sincera opinião! Não podemos passar a viver dentro de uma bolha e esquecer tudo o que foi vivido, todas os amigos, a forma de ser e agir. Nós continuamos a ser mulheres, amigas, filhas, netas, esposas, namoradas, companheiras.A única diferença é que passamos também a ser mães. Sinto que a minha vida não gira em torno da minha filha. Ela não é o meu mundo; ela FAZ PARTE dele... É das experiências mais enriquecedoras que alguma vez tive e sei que vou ser melhor pessoa por causa disso, mas nunca uma pessoa diferente! Mais uma vez: tenho dito!

Ana. disse...

É por tudo isso, Mamã, que eu sei que não só és uma excelente mãe como continuas a ser uma boa amiga!

E atenção que não quero de maneira nenhuma diminuir o fenómeno maravilhoso que deve ser ter um filho! Só tenho pena quando a vida das mães passa a resumir-se unicamente a isso.

Mas no teu caso estou tranquila, não me parece que deixes de ser a nossa risotas de sempre! Quando muito tens mais motivos para arreganhar a taxa!

Bêjos!

;)