quinta-feira

A Delícia das Palavras


Cafe-Librería El Péndulo, Sucursal Polanco, na Cidade do México!

Que charme de livraria!




O meu apego às palavras já não é de hoje.

Quando tinha onze ou doze anos, a minha mãe que é uma santa, mas que de pedagogia nunca percebeu muito, zangava-se comigo porque a única coisa que eu fazia nos fins-de-semana, nas férias e em todos os bocadinhos que arranjava era ler.

Li de tudo um pouco, desde as Júlias, Sabrinas e Biancas da minha vizinha da frente, até aos livrinhos da Condessa de Segúr, passando pelos Cinco, pelos Sete, pelos Nove e por todos os grupos de números ímpares que tinham aventuras publicadas!

Passado pouco tempo descobri a Agatha Christie, o Robin Cook, o Konsalik (todos grandes mestres de literatura a metro, mas nontheless boa de se ler!). Li coisas boas, assim assim e más! Mas tudo me fez bem, tudo me ensinou qualquer coisa.

Não conseguia arranjar uma actividade que me desse tanto prazer, que me enchesse tanto as medidas, que me fizesse viajar e me abrisse os horizontes como a leitura. Era muito fácil deixar-me envolver nas histórias, imaginar que se fosse eu a heroína fazia assim e assado e se fosse o autor não teria escolhido aquela maneira ou a outra de resolver os mistérios e problemas. Quando se lê, é muito fácil criticar. mas quando se tenta escrever para os outros lerem, o caso muda de figura.

Durante a adolescência, apesar de já ter uma ideia mais ou menos clara do que queria fazer na vida, ainda não tinha muita noção sobre como funcionava o mundo da tradução. Acho que só lá por volta dos 16 anos é que me comecei a aperceber que se os livros apareciam nas minhas mãos em português e tinham sido escritos por uma russa ou um alemão, devia haver mão de terceiros ali pelo meio. E comecei a prestar uma atenção maior às palavras. Comecei a imaginar como seria ler a mesma obra no original. O que podia ganhar? O que podia perder? (Se lesse em russo, perderia tudo! Tive três semestres da dita língua e já nem me lembro do alfabeto inteiro!!)

Mas comecei desde muito nova a questionar não o trabalho, mas as opções das pessoas que traduziam os livros. Porque embora sejamos apenas tradutores e não autores, uma parte do que escrevemos reflecte as nossas próprias escolhas lexicais. Há palavras que não gosto de dizer e outras que me saem com mais facilidade. E isto sem desvirtuar o texto original, obviamente.

No primeiro livro que traduzi, depois do estágio, tive uma teima com a revisora em relação à tradução da palavra "damm".
Eu queria que fosse "chiça", que é uma palavra que me é muito querida(!!) e ela achava que devia ser "merda".
Lá andámos as duas às turras, a tentar convencer-nos uma à outra até que acabei por ganhar.

Depois de publicado o livro, disseram-me:

- Eu assim que o abri e vi na primeira linha "Chiça!", pensei logo isto é mesmo da Ana!

Porque por muito que não queiramos, damos sempre um bocadinho de nós aos trabalhos que nos passam pelas mãos.

É por isso que este trabalho me consome tanto...
Mas ainda hoje, ler é das melhores coisas que posso fazer com o meu tempo.

*
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8 comentários:

Ana C. disse...

Adorei ler-te ;)
Diz-me que te lembras dos Desastres de Sofia, ou das Memórias de um Burro?
Eu penso muito acerca de quem traduz os livros e de como tantas vezes deve ter que optar entre uma expressão, ou outra. Há muito de bom senso e de subjectividade sim.
Vou procurar um livro que comece por chiça :)

MARIINHA disse...

Olá Ana.Estava a ler o teu post e a pensar que eu também era um bocado assim como tu.
A minha mãe ralhava comigo, poque eu aproveitava todos os bocadinhos para estar a ler. Comecei bastante cedo. E li muita porcaria, mas também li muita coisa boa felizmente. Também penso como tu, não me fez mal nenhum. Adoro ler, não tenho é o tempo que gostaria para o poder fazer. Mas mesmo assim ando sempre com um livro atrás, neste momento ando a ler um do António Alçada Batista. E tu já não andas naquele corre corre? Já estás no teu ritmo normal de trabalho? Espero que sim. Beijinhos

Rainha Mãe disse...

Também eu começei a ler muito cedo e tal como tu é das coisas que mais prazer me dá. Com muita pena minha o meu percurso profissional não passa por esse campo. E ao ler-te descrever o que fazes não posso deixar de imaginar o que seria trabalhar sempre com livros. Resta-me meter a inveja de parte e usufruir da sua leitura.

Ana. disse...

Ana C!
Das Memórias de um Burro e da Menina Insuportável!!Já não me lembro de muitos pormenores das histórias, mas sei que na altura ficava deliciada!

O livro que começa por chiça é da Sarah Duncan e tem o sugestivo título de "Adultério para Principiantes"!! É um romance de cordel, ligeirinho, mas castiço, que foi muito bom de traduzir!

;)

Ana. disse...

Mariinha,
Eu ainda ando no corre corre, mas agora um pouco mais organizada! A organização é a chave de tudo!!
Um beijinho para ti!

;)

Ana. disse...

Rainha mãe,
Não fiques com invejinha, que isto é muito lindo, mas dá-me cabo do corpo e da cabeça!!

;)

Ceres disse...

Que engraçado, os livros também têm marcado a minha vida desde muito cedo e também sou" viciada" em leituras ;-)
Compreendo bem o que dizes, nunca fiz tradução mas já fiz revisão de texto durante sensivelmente 2 anos e meio e foi algo que me deu um imenso gozo.
Por isso, identifiquei-me bastante com as tuas palavras.

Espero que estejas melhor do teu joelhito ;-)

Banita disse...

E eu que ainda este fds estive em Polanco!!?? Não sei onde fica essa livraria...
Já vi uma sucursal dessa livraria no Santa Fé e muito gozo me deu ao ver que o Saramago tinha vários livros à venda ali. :D Sabe bem ver os nossos autores em terras distantes! Venham cá autores portugueses, cá vos espero!
Eu também adoro ler! :) Ultimamente ando a sofrer de uma maleita rara... quase só leio livros da Nora Roberts... não sei o que é mas, atrai-me como uma flor atrai a abelha! Tenho de voltar a outros autores senão fico encaixotada no formato NR!!