quarta-feira

Carcaças Velhas



Isto sim, é uma carcaça velha.
Linda. Mas velha.

Faz-me alguma confusão ver como se catalogam as pessoas de acordo com os anos que os seus corpos têm.
Agora que o meu aniversário se aproxima a passos largos, e para responder a uma observação de uma sensibilidade avassaladora que vaticinava: "Estás a ficar velha", gostava de discorrer um tudo nada sobre a questão dos anos e do seu reflexo no corpo e no espírito. Porque são coisas distintas.

Tenho 34 anos.
Quando me perguntam a idade hesito quase sempre. Não por pejo de dizer o número que já impõe algum respeito, que isso a mim não me incomoda nada, mas porque tenho sempre de fazer um esforço para me recordar dele. É que não sinto que este número esteja intrinsecamente ligado àquilo que sou e ao que me vai na alma. É claro que olho para certos aspectos da vida com outros olhos, com outra responsabilidade, mas acho que isso se deve mais ao meu crescimento enquanto pessoa que ao passar dos anos. Não sei se há preocupações que assolem especialmente as pessoas aos 20, aos 30 ou aos 40 anos. Quero dizer, quando tinha 20 anos já andava preocupada com as condições que terei na velhice. E aos dez questionava-me por que razão gostava tanto de ler e conhecer coisas que os mais velhos diziam que não eram para a minha idade.

Assim sendo, para mim, a idade cronológica não é mais do que um registo prático que vai marcando certas etapas da nossa vida. Aos 18 anos passamos a poder votar, a tirar a carta e já podemos ir presos! Daí para a frente, verifica-se apenas o avanço inexorável dos algarismos.

No que diz respeito ao corpo, as coisas já são um pouco mais complexas. Mas igualmente pouco dramáticas.
É certo que já não consigo fazer directas como antigamente e se beber muito café fico cheia de tremeliques e com dores de estômago. É certo que se abusar dos doces o corpo reage de uma maneira diferente de há 10 ou 15 anos atrás, mas as manifestações da idade produzem-se a um nível meramente físico. Se encararmos o nosso corpo como uma máquina, é natural que com o passar do tempo ela comece a denotar alguns sinais de cansaço, que algumas peças comecem a requerer outro tipo de atenção e que algumas engrenagens não funcionem tão bem como desejaríamos.

Mas nem neste aspecto me revejo.
Sinto-me melhor no meu corpo agora, aos quase 35 anos, do que há 10 anos atrás.
Estou mais cuidada, mais bonita, mais apaixonada por mim.
Tenho mais cuidados, mais preocupações, mas também vivo mais agora do que quando tinha 25 anos. Aproveito mais e melhor o que a vida me vai oferecendo.
Acredito que mereço todas as coisas boas que me acontecem e que muitas mais estão à minha espera ao longo caminho que ainda tenho para percorrer.

A única coisa que me assusta é o estado em que viverei a minha velhice. Se vou estar sozinha. Se vou continuar a ser feliz.
Não penso muito na minha morte. Penso mais na morte dos que me são queridos. Isso sim assusta-me a valer.
Mas como sempre, se deixar a minha cabeça vaguear livremente, ela tende a afastar-se destes assuntos mais lúgubres e concentra-se inevitavelmente nos aspectos bons da vida, nas pessoas que agora fazem parte dela e em como é bom olhar para trás e constatar que evoluímos, que somos hoje melhores do que antes.
Os anos?
São apenas um número, um detalhe técnico; não são assim tão relevantes!

Ah! E velhos são os trapos!!

*
*

6 comentários:

Banita disse...

Gostei!
E para quando o bebé? Afinal..."estás a ficar velha"! LOL
;)
beijinhos

Ana C. disse...

Mais um texto maravilhoso!
Eu também hesito quando tenho que dizer os números que definem a minha idade cronológica. Perdi-me algures a meio dos 20, quando fazer anos deixou de assumir aquela importância astronómica que tinha.
Eu não sei se te acontece, mas tenho dias em que sinto tudo de bom que os 34 têm, sem me sentir com 34 :)

Ana. disse...

Banita,
Segue resposta por emilio!



Ana C.
Então não acontece?! Todos os dias!
Eu adoro fazer anos, adoro o dia, o mimo e sinto-me verdadeiramente especial, mas o número não me diz nada!!

Carolices!

;)

Sandy disse...

Essa foto é de onde? Seixal?

Ana. disse...

Olá Sandy!

É sim, é na baía do Seixal. Adoro esta carcaça e sempre que lá passo tiro uma fotografia!
És de perto?

Volta sempre!

;)

Sandy disse...

Vivia na Arrentela, agora quase que me mudei para Faro.

Gostei do blog :)