sábado

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Hoje não foi uma noite boa.
Ou por outra a noite até foi, o acordar é que não teve muito interesse.
Sonhei com o meu avô. Sonhei que andava em casa dele a remodelar tudo, a arranjar um sofá confortável, a mudar as cadeiras e a mesa de sítio, enquanto ele me dizia que assim gostava mais, que assim estava melhor, que dava mais jeito quando se entrava da cozinha, que se eu quisesse até podia renovar o quarto lá de trás para poder lá ficar a dormir.
E estávamos ali os dois entretidos.

O meu avô sempre foi um velhinho muito janota, daqueles que escolhia a cor da gravata de acordo com a ocasião, que cheirava sempre bem e usava boné há tantos anos por cima do cabelo branco e fino que até já tinha o vinco do boné na cabeça.
Contava-nos histórias muito engraçadas, tinha uma gargalhada contagiante, tratava das plantas e flores com uma delicadeza que dava gosto ver e era barra a matemática!

Quando era miúda ia para a escola de autocarro e o meu avô ia trabalhar para o castelo, onde foi jardineiro durante mais de vinte anos. Fazíamos a viagem juntos e era frequente ele dar-me uma nota de vinte escudos - sim, eu sou desse tempo!... - e dizia-me:
- Toma lá, para comeres um bolo!
Aquilo para mim era uma fortuna e muitas vezes não comprava bolo nenhum e guardava o dinheiro, para juntar e comprar outra coisa qualquer.

Mais tarde, quando andava na faculdade e ia a casa ao fim-de-semana, depois de me perguntar como é que estavam a correr os estudos, dava-me uma nota de cinco contos (sim, que o meu avô sempre entendeu bem o valor do dinheiro no tempo) e dizia-me:

- Toma lá, para beberes uma cerveja!
- Ó vô, uma cerveja?!
- Pois, mais vale beberes uma cerveja que um café. Isso é que é um veneno!
- Então e depois de beber a cerveja, quer que lhe traga o troco?!!
- Ai cachopa!!

E era a gargalhada geral.

Quando o meu avô conheceu o Nuno, depois de conversar um bocadinho com ele, disse-me assim:
- Pronto, já tenho mais um neto.
...
E é por isto tudo e muito, muito mais, que quando acordo depois de sonhar com ele e me apercebo que afinal é só nos meus sonhos que ele vive, que me sinto invadida por esta tristeza.
Eu não quis ver o meu avô quando ele estava doente. Não fui capaz. E no dia em que me decidi a ir vê-lo, ele morreu.
Por isso a última imagem que tenho sua é de quando nos despedimos no Natal de 2007; ele estava de pé, agarrado ao corrimão, com o seu fato de três peças, gravata, alfinete de ouro e boné, a dizer-nos adeus, a mim e ao Nuno, a sorrir.
E nesse dia disse: "Tenho a sensação de que nunca mais vou ver o avô".
E não vi.
Porque não o vi no hospital nem durante o funeral. Aquele não era o meu avô.
O meu avô Custódio era aquele senhor janota de fato escuro e gravata vermelha que se despediu de mim com um sorriso, enquanto se esforçava para ficar de pé, só para eu o ver como sempre o vi, um homem forte, grande, extraordinário.
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Acho que nunca vou deixar de chorar o meu avô.
E para ser sincera, preferia não voltar a sonhar com ele.
É muito mau acordar...

*
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3 comentários:

Banita disse...

Ai, mulher que já me fizeste chorar... porra que nem vejo as teclas...
Eu também tenho esse sentimento por uma avó, não consigo pensar nela sem ficar triste, mas tão triste, tão triste que não há compreensão! A não ser a tua e a de outrém que tenha passado pelo mesmo! É muito duro, ter avós assim amigos, quando eles se vão, uma parte de nós ficará inconsolavél para o resto da vida! E não me venham dizer que com o tempo passam, pois a minha avó já morreu há 2 anos e meio e eu não consigo encontrar uma forma de atenuar a dor sempre que me lembro dela!
Beijinhos solidários e chorosos...

Ana C. disse...

Ana só te consigo dizer que adorei este texto, que me tocou muito. A sensação de acordarmos e percebermos que tudo não passou de um sonho provoca um vazio, um vácuo brutais. Sei exactamente o que sentiste...

Ana. disse...

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Obrigada, meninas!
;)